Cuidado com as definições! Elas podem conter armadilhas. Frequentemente somos vítimas delas, porque nem sempre estamos dispostos ou preparados para questioná-las. Prova disso, são as definições que você verá no texto seguinte.
CURIOSIDADES LINGUÍSTICAS
O perigo das definições
Você sabe qual é o sujeito?
Você certamente já viu, leu e, com certeza, já ouviu professores ensinando que sujeito é o termo da oração sobre o qual se afirma alguma coisa.
Então, qual é o sujeito da oração seguinte?
João prometeu a Maria um relógio de ouro.
Com base nessa definição, você afirmará, com toda certeza que o sujeito é João. Entretanto, se eu afirmar que a sua resposta está equivocada, não é de admirar que você se surpreenda, porque foi exatamente assim que nós aprendemos. Mais surpreso ainda ficará se eu disser que, nessa oração, existem três elementos sobre os quais podemos afirmar alguma coisa: João, Maria e relógio.
1. Sobre João: é afirmado que ele prometeu um relógio;
2. Sobre Maria: é afirmado que a ela foi prometido um relógio;
3. Sobre relógio: é afirmado que ele foi prometido e que é de ouro.
Portanto, de acordo com a definição supra, a oração acima contém, ao todo, três sujeitos.
Você também aprendeu que o sujeito é aquele pratica a ação expressa pelo verbo. Então, fundamentado por essa definição, você seria capaz de apontar o sujeito das orações seguintes?
1. João ensina o filho a ler.
2. O menino apanha do padrasto.
3. Eu estou vendo uma maçã.
Certamente você dirá que os sujeitos são, respectivamente, João, Maria e eu.
No tocante à primeira oração, você se saiu muito bem, porque não há dúvida alguma de que João é o agente do processo verbal; é ele quem pratica a ação expressa pelo verbo. Nas demais orações, a sua resposta foi inadequada.
O menino que apanha do padrasto está praticando a ação de “apanhar”? Não está ele, na verdade, sendo o recebedor dessa ação? Nesse caso, o padrasto é que seria o sujeito, visto que é ele pratica a ação de “bater”, “açoitar”, etc., termos que correspondem, pelo sentido, a “apanhar”.
Na terceira oração, o “eu” não pratica ação alguma, porque, na verdade, não existe nenhuma noção de atividade em relação ao verbo “ver”. Os olhos, que fazem parte do “eu”, estão sofrendo passivamente em sua estrutura a ação dos raios luminosos. Em outras palavras, de acordo como essa definição, não se pode apontar nenhum sujeito para essa oração.
Como você pode ter notado, esta análise se fundamenta basicamente no aspecto semântico das definições.
É preciso ter cuidado com as definições. Elas são perigosas. São também difíceis, porque não são formuladas com facilidade. A dificuldade para definir é tanta, que Aristóteles teria dito a seus discípulos que, se ele encontrasse alguém que soubesse definir as coisas claramente, o filósofo acompanharia os seus passos enquanto vida tivesse.