sábado, 25 de agosto de 2012

Felicidade: essa clandestina

Há quem duvide de que a felicidade exista; mas que ela existe, existe.


A felicidade existe?

Ao contrário do que afirmava o cantor e compositor Odair José, a felicidade existe. Também os momentos felizes existem. Nisso ele tinha razão.
            A felicidade é um sentimento, um ente abstrato. Sua existência está diretamente relacionada ao ser que possui sensibilidade: o ser humano, que se sabe conscientemente feliz ou infeliz.
            Nenhuma pessoa pode estar ininterruptamente feliz. Que isso é determinar a desvalorização da felicidade. Somos ou estamos felizes, porque antes estávamos infelizes. E, quando estamos assim, o que mais desejamos é estar em estado de graça. Assim, o valor da felicidade está diretamente relacionado à falta dela.
            Como podemos estar, alternadamente, felizes e infelizes, então podemos concluir que não existe a felicidade eterna, mas momentos de felicidade. Estes momentos, somados, dirão o quanto somos ou fomos realmente felizes.
            Vivemos em meio a realidades que se opõem, e uma determina a existência da outra. O amor não existe sem o ódio; a guerra, sem a paz; a audácia, sem a covardia; o egoísmo, sem o desprendimento; a vida, sem a morte; o céu, sem o inferno... e a felicidade, sem a infelicidade.
            A felicidade eterna seria sua própria negação. A felicidade duradoura é tediosa. O tédio é a sua negação. Para garantirmos a existência da felicidade, tão frágil, tão volátil, é preciso que rompamos com o tédio, a causa de nossa infelicidade e, ao mesmo tempo, a tábua de salvação dela.
            A felicidade é de tal modo volátil, de uma leveza quase insustentável, que a nossa  maior romancista psicológica a nomeou com singular propriedade, como “passageira clandestina”.
            A felicidade é clandestina, sim. Ninguém pode se apoderar dela. Ela pousa onde bem lhe convier e vai-se embora, abrupta ou sorrateiramente, sem dar satisfações a quem quer que seja. A felicidade é o delicado perfume que adoramos, mas, quando nos damos conta, ele já não está mais em nossa pele: silenciosamente evapora-se enquanto dormimos ou nos mantemos acordados.
            A felicidade eterna é o Paraíso; o Shangri-lá, onde os homens que deixaram a sua condição humana, despindo-se das impurezas agregadas à matperia corrompível de que seus corpos foram formados e formatados, ao longo da vida terrena, e ali se refugiaram. A felicidade eterna existe; não no plano terreno. Ela existe numa dimensão além-humano, porque o homem, na sua imperfeição, jamais pode ser feliz  indefinidamente, sob pena de decretar o fim da própria felicidade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Brincando com as palavras

 A palavra é adaga de dois gumes; por isso, cuidado com elas!...


                                                Mijar ou fazer xixi?


            Não, leitor, não se trata de artigo de divulgação científica. Bem que o título remeta a essa ideia. Como se costuma dizer, as aparências enganam. E o porquê da pergunta? Quase um decifra-me-ou-devoro-te!...
            Porque, ainda que as duas expressões tenham a mesma significação de “urinar”, parece-me que, usá-las indiscriminadamente, não seja de bom foro, por conta de eu achar que aos homens, strictu sensus, cabe dizer, com toda propriedade, “mijar”. Não se trata de preconceito, todavia, não acho de bom alvitre homens fazerem xixi. Em resumo: homens não fazem xixi.
            “Fazer xixi”, não sei se por conta de certo viés onomatopeico, seja mais adequado às mulheres e/ou às crianças. A expressão, além de seu conteúdo semanticamente infantilizado, constitui um caso explícito de eufemismo, como forma de suavizar o urinar e o mijar, expressões menos polidas. Já o urinar e mijar, apesar de sua carga de rusticidade, podem ser usados por homens, mulheres e crianças, indistintamente. Urinar parece revestir-se de uma conotação científica, enquanto que mijar intui alguma coisa própria ao gênero masculino. Mijar conota certa virilidade ao ato. O que não acontece a urinar e fazer xixi.
            O uso dessas expressões envolve não somente aspecto relacionado ao estilo (polidez), mas também a carga semântica, já comentados. Usá-las, com o devido cuidado, possibilita evitar constrangimentos, por causa do subjetivismo em suas interpretações. Explico: certa vez, ouvi uma pessoa – um homem – lascar um “apesar de eu ser homem”, durante um pequeno discurso, no qual tecia (como nunca vi antes um genro fazer), rasgados elogios a sua sogra.
A coisa passou despercebida por todo mundo, menos eu. O infeliz, mesmo de bem com a sua condição sexual, declarou-se insatisfeito com sua masculinidade, por usar, inadivertidamente, essa locução prepositiva em vez da conjuntiva “embora” ou a expressão equivalente “mesmo sendo”.
Como disse, não se trata de preconceito. Todavia, volto a repetir: homem, que é homem, nunca faz xixi; mija.