A felicidade existe?
Ao
contrário do que afirmava o cantor e compositor Odair José, a felicidade
existe. Também os momentos felizes existem. Nisso ele tinha razão.
A felicidade é um sentimento, um
ente abstrato. Sua existência está diretamente relacionada ao ser que possui
sensibilidade: o ser humano, que se sabe conscientemente feliz ou infeliz.
Nenhuma pessoa pode estar ininterruptamente
feliz. Que isso é determinar a desvalorização da felicidade. Somos ou estamos
felizes, porque antes estávamos infelizes. E, quando estamos assim, o que mais
desejamos é estar em estado de graça. Assim, o valor da felicidade está
diretamente relacionado à falta dela.
Como podemos estar, alternadamente,
felizes e infelizes, então podemos concluir que não existe a felicidade eterna,
mas momentos de felicidade. Estes momentos, somados, dirão o quanto somos ou
fomos realmente felizes.
Vivemos em meio a realidades que se
opõem, e uma determina a existência da outra. O amor não existe sem o ódio; a
guerra, sem a paz; a audácia, sem a covardia; o egoísmo, sem o desprendimento;
a vida, sem a morte; o céu, sem o inferno... e a felicidade, sem a infelicidade.
A felicidade eterna seria sua
própria negação. A felicidade duradoura é tediosa. O tédio é a sua negação. Para
garantirmos a existência da felicidade, tão frágil, tão volátil, é preciso que rompamos
com o tédio, a causa de nossa infelicidade e, ao mesmo tempo, a tábua de salvação
dela.
A felicidade é de tal modo volátil,
de uma leveza quase insustentável, que a nossa maior romancista psicológica a nomeou com
singular propriedade, como “passageira clandestina”.
A felicidade é clandestina, sim. Ninguém
pode se apoderar dela. Ela pousa onde bem lhe convier e vai-se embora, abrupta ou
sorrateiramente, sem dar satisfações a quem quer que seja. A felicidade é o delicado
perfume que adoramos, mas, quando nos damos conta, ele já não está mais em nossa
pele: silenciosamente evapora-se enquanto dormimos ou nos mantemos acordados.
A felicidade eterna é o Paraíso; o
Shangri-lá, onde os homens que deixaram a sua condição humana, despindo-se das
impurezas agregadas à matperia corrompível de que seus corpos foram formados e formatados, ao longo da vida terrena, e ali se refugiaram. A felicidade eterna existe; não no plano terreno. Ela existe numa
dimensão além-humano, porque o homem, na sua imperfeição, jamais pode ser
feliz indefinidamente, sob pena de decretar o fim da própria felicidade.