Após esses poucos meses nos quais publicamos nossos textos, estamos nos afastando, por tempo indeterminado, ou,quiçá, em definitivo.
Apesar de isso não ser motivo de consternação (imaginem!), em respeitos aos poucos leitores que tivemos (desculpem-nos a soberba, em número superável ao do famoso defunto-autor em Dom Casmurro), cumpre-nos esse dever.
Obigado pelos momentos de ilusão que nos proporcionaram e, também, por terem suportado, estoicamente, "hic et illic", as nossas parvoíces.
sábado, 21 de abril de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Perguntas, poeminhas e afirmações
Deus
Deus é claro,
Mas é complexo.
Causa e efeito
Depois que inventou a roda,
O homem começou a engordar.
Baquianos
Eu vinho
Tu vinhas
Ela vinha...
E terminamos
Todos embriagados
Amor
O amor desinteressado não existe,
Porque ninguém ama a quem não lhe interessa
Espera
Esperei
Esperei
Esperei...
E de tanto
Esperar
Me cansei.
Pergunta
Quando a noite cai
É por que o sol se levanta?
Pergunta
Uma ovelha negra
pode ser boazinha?
Pergunta
Pode um
ser vil
ser
servil?
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Ensino religioso: uma opinião
Este texto fala das experiências de seu autor em matéria religiosa e sua opinião quanto ao ensino religioso, especialmente no ensino público, posto que o Brasil, em tese, é um estado laico.
Religião e terror
Eu, nos primórdios dos anos 60, entre os dez e doze anos, portanto ainda uma criança, assistia, na escola, a aulas de religião uma vez por semana.
Quando digo “religião”, quero dizer “catolicismo”, ou religião católica, porque as outras religiões, essas não tinham vez, uma vez que, dada a maioria dos seguidores daquela, as minoritárias não eram vistas com bons olhos. Se o protestantismo, que engloba uma série de religiões cristãs, era discriminado, o preconceito maior ainda era contra quem nem cristão fosse.
Havia liberdade em continuar em sala, durante esses ofícios ou dela sair. Entretanto, a simples saída daqueles que não professavam a fé católica, sob o olhar de censura dos que ficavam, por si só, já se constituía um momento de visível constrangimento. Para os que ficassem, ainda que houvesse a liberdade de escolha, o constrangimento era maior ainda, porque, não obervando os ritos próprios ao ofício, esses eram olhados com desconfiança, como se fossem seres alienígenas.
A professora, obviamente católica, com o apoio do pároco local, portava um livrinho de catecismo, o qual, no início do ano letivo, era vendido para os alunos, a fim de que lessem e respondessem às questões referentes aos assuntos de que constavam do livro. O texto estava dividido em quatro partes que se ligavam entre si:
A profissão de Fé – baseada no Credo, cujo objeto é o mistério cristão;
A celebração do Ministério Cristão, que tratava da sagrada Liturgia da Igreja, especialmente os sete sacramentos;
Mas o que mais me marcou nessas aulas, fora uma espécie de terrorismo religioso declarado, cujo objetivo principal era arrancar as almas do pecado por meio do medo. O livrinho trazia ilustrações e pinturas, como o Juízo Final, o fiel acompanhado de seu Anjo da Guarda, enquanto o demônio, com a cabeça e pés de bode, cochichava ao ouvido de uma pessoa, seduzindo-a, a visão fantasmagórica do inferno onde os condenados eram supliciados pelas chamas e por serpentes vigorosíssimas enroscadas em corpos seminus.
Evidentemente aquela forma de ensinar surtia efeito, mormente naqueles mais sensíveis, que teriam de fazer de tudo para não caírem nas tentações demoníacas e não cometessem os sete pecados capitais (luxúria, gula, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça), sempre a égide do medo, uma vez que, no caso de cederem às tentações do diabo e cometerem esses pecados, aquelas iluminuras diziam muito bem dos tormentos do inferno que os aguardavam.
E como não pecar, isto é, não errar, se o erro faz do gênero humano? Depois de tanto se policiar, com o objetivo de escapar a esses delitos e, conseguintemente, do abismo tormentoso do inferno, o pobre cristão pecava e pecava, justamente porque o pecar está na índole humana. Peca-se por atos e omissões, ou de forma consciente ou inconsciente. E, ao descobrir ter havido pecado, aí vinha o medo do castigo eterno, isso em pleno século XX.
Hoje, após ler, prazerosamente, o romance do escritor italiano Umberto Eco – O nome da rosa – ambientado no século XIV, na Idade Média, na qual vigorava o pensamento teocrático, ou seja, dominado pelo sentimento religioso, durante a qual todos os fenômenos naturais ou não eram explicados pela interferência da Providência Divina ou do diabo.
Neste clássico da Literatura Contemporânea, o personagem principal, frei Guilherme de Baskerville, acompanhado de seu noviço Adso de Melk, viaja para uma abadia na Itália, abalada por mortes de alguns seus monges, suspeitas de suicídio ou assassinato, a fim de investigar suas verdadeiras, posto que Guilherme, ao contrário de outros monges de seu tempo, orientava-se pelos ensinamentos filosóficos e científicos de Roger Bacon, portanto longe daquela visão religiosa de que as mortes fossem resultado das ações do Anticristo.
Imagino, então, como era temerário viver na Idade Média, justamente por causa da força do pensamento católico que não admitia qualquer outro pensamento diferente do seu, mesmo daqueles que, dentro do próprio catolicismo, defendessem teses que contrariassem o pensamento dominante, pois podiam terminar acusados de heresia e queimados vivos pelo Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição, se, em pleno século XX, ainda existia aquele terror no ensino religioso.
A minha opinião é que religião não se ensina; aceita-se. Ninguém aprende a ser católico, protestante, umbandista, espírita, etc., senão pela força do costume ou da imposição. Tomemos como dessa imposição, aqueles garotinhos torcendo, constrangidos, por time A ou B, simplesmente porque o pai não admite que o filho torça por outra equipe que não a dele. Este texto não é uma parênese ao catolicismo ou a qualquer religião, mas às autoridades permitem o uso do ensino público, de um ente laico como deve ser o Estado para objetivos, ainda que se diga que não visem ao proselitismo desta ou daquela religião, haverá, por força do caráter humano, a tendência a incluir no discurso, aqui e ali, por meio de subterfúgios velados, a doutrina de sua fé.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Descriminalização do aborto
Dizem que quem tem pena do coitadinho deve-se colocar no lugar dele. O pior é que são muitos os que não têm nem um pouco de sensibilidade com o sofrimento do outro, quanto mais ficar no lugar!...
Pimenta nos olhos dos outros...
Em recente programa de televisão, por ocasião em que o Supremo votava pela liberação do aborto de fetos, comprovadamente desprovidos de cérebro (anencéfalos), o qual, por conta disso, não caracterizaria um atentado contra a vida, num debate sobre o assunto, um médico, um psicólogo e um padre faziam suas colocações, ou seja, seus pontos de vista.
Nas discussões, o médico pareceu-me não querer endossar a tese a favor da descriminalização, praticamente vitoriosa, porque, segundo ele, a Medicina ainda não dispõe de meios que possam diagnosticar com 100% de segurança que um feto seja anencéfalo, ou que esse futuro rebento possa ter morte intrauterina ou extrauterina, quando a gestação chegar a seu final, ou, ainda, mesmo que nascendo com vida, quanto tempo poderá sobreviver.
O psicólogo passou, então, a discorrer sobre as consequências que uma gestação como essa poderia desencadear sobre a mãe, pelo fato de ela saber, antecipadamente, que, em vez de comprar um berço para seu bebê, teria que comprar um caixão para ele. Disse que, mesmo com acompanhamento de um psicólogo, a vida dessa mulher não seria nada fácil. E quando ela falava desse acompanhamento destinado a todas as mulheres nessa situação, lembrei-me de que o preço mínimo por cada sessão não é menos que R$100,00. Então imaginei aquela senhora muito pobre, aqui da cidade grande e lá do interior, como que ela poderia ter acesso a esse acompanhamento? Em suma, segundo ele, a não interrupção acarretaria para a mulher, um sofrimento desnecessário, por causa da carga emocional que isso representaria para ela.
Em seguida, falou o padre, como sempre recitando o conhecido bordão conservador de sua Instituição, pela defesa da vida a qualquer custo, e temendo que essa liberação ou descriminalização resultasse, a posteriori, em liberdade total para prática de interrupção da vida, ainda que a questão em debate fosse apenas sobre os casos de anencefalia.
Todos nós conhecemos o conservadorismo da Igreja Católica e o poder que ela exerce sobre as instituições do Estado como um quarto Poder, ainda que a Constituição declare o Estado brasileiro como laico.
Durante os dias em que o Supremo discutia a questão das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas com potencial para curar doenças para as quais a ciência ainda não dispõe de meios para curá-las, assistíamos à cantilena dos políticos e de algum ministro conservadores, em matéria religiosa ou não, assumindo posições contrárias aos anseios daqueles que veem, nessas pesquisas, uma luz no fim do túnel para seus problemas. Naquele momento, o que mais preocupava, em especial, deputados e senadores não era tanto a questão ética sobre a qual se debatia ou a minoração do sofrimento das vítimas dessas enfermidades, mas o que representava votar a favor ou contra matéria sobre o assunto, em termos de perda de votos que pudesse representar perigo para o futuro político deles.
Enquanto aqui o conservadorismo religioso ou não pode impedir o progresso da ciência, outros países, com visão mais progressista ou liberalizante, avançam nessas pesquisas, apresentando resultados até então inimagináveis. Todavia, o que pode nos causar revolta, por conta de posições, reconhecidamente retrógadas, não é tanto pela posição em si, porque isso faz parte do jogo democrático, porém saber que aquele político ou não, quando vitimado por uma dessas doenças degenerativas para as quais a única esperança está lá fora, pega um avião e, sorrateiramente, vai buscar tratamento no exterior com as mesmas células-tronco embrionárias que aqui ele considerou antiético pesquisar. Como é que alguém pode ser zeloso pela ética aqui e lá fora, não? Como posso ser “ético” com o sofrimento dos outros e nem pouco quando o sofrimento é meu?
Voltando à questão da anencefalia: o que dizer daqueles discursos pomposos, recheado de citações igualmente pomposas, em defesa da vida a qualquer custo, ainda que, para isso, a mulher possa perder a própria vida? São as mulheres que devem decidir pela interrupção da gravidez, porque são elas que realmente podem saber o sofrimento de carregar, em seu ventre, um ser fadado a morrer, mais cedo ou mais tarde. E como bem disse um ministro: “dar à luz significa dar a vida; não a morte”.
É bonito filosofar sobre a dor ou sofrimento, quando quem está sentindo a dor ou sofrendo é o outro. É fácil encorajar alguém a enfrentar o sofrimento com dignidade; o difícil é fazer aquilo que queremos que o outro faça, como expressa a sabedoria popular: pimenta nos olhos dos outros é refresco. Por isso, antes que nos coloquemos contra alguma coisa que possa minorar ou, quem sabe, salvar a vida do nosso próximo, o melhor que podemos fazer é nos colocarmos no lugar daquele que realmente está sofrendo.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Parnaíba e Poti
Quem mora em Teresina sabe quais rios banham esta cidade. Todavia, para a maioria dos piauienses, o rio de nossa terra é o Parnaíba, cantado em versos pelo nosso poeta-mor Da Costa e Silva. Aqui uma homenagem a esse rio de nossa identidade cultural, a la Fernando Pessoa.
O Rio da minha terra e da minha cidade
O Parnaíba e o Poti são dois belos rios que correm pela minha cidade.
Mas o Poti, esses belíssimo rio que corre pela minha cidade,
Não é o rio da minha cidade,
Porque ele é somente um rio que corre pela minha cidade.
O rio da minha cidade é o Parnaíba,
Um gigante encanecido, de longas barbas brancas,
Que o tempo e os homens o estão exaurindo.
O Parnaíba já teve grandes embarcações
Que navegavam em suas águas outrora remansosas.
No cais ocioso de Teresina, ainda se pode vê tudo que lá não está:
Memória dos antigos gaiolas, rio abaixo, rio arriba.
O Poti de águas serenas, no estio, e caudalosas, nos grandes invernos,
Desce do Ceará, rasgando rochas em boqueirões profundos,
Abraça o Parnaíba, em titânica luta,
E depois se abraçam, se fundem e se irmanam
E o Poti, em silêncio, por fim, se torna em rio Parnaíba.
O Parnaíba é o rio de minha cidade
Não somente porque ele corre pela minha cidade,
Mas porque é genuinamente o rio de minha terra.
O rio da minha cidade desce da Serra da Tabatinga
E vem banhando quilômetros a fio
Até encontrar o mar, sempre em terras de minha terra.
Ainda que o rio de minha terra seja rio de outras terras,
O sentimento da gente da minha cidade da minha terra
Não é o sentimento que se tem por um rio qualquer,
Porque o rio da minha cidade está aqui dentro de nós.
Toda a gente nossa sabe de onde ele vem
Para onde ele vai.
Por isso ele pertence mais a nós que aos outros.
O rio de minha cidade é também da minha vida,
Porque ele é verdadeiramente o rio de minha terra.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
O cliente chato
Coisa mais chata é a gente entrar numa loja para procurar algo que nos interessa e ficar aquele vendedor chato ao nosso pé, o tempo todo, dizendo que isso ou aquilo é bonito, está na moda, ou oferecendo um substituto que nada tem a ver com aquilo que queremos. Mas isso também acontece com certos clientes que saem de casa para nada comprar e ficando andando, de loja em loja, enchendo o saco dos vendedores.
Um filho de uma égua!
Não era aquela a primeira vez que o balconista da loja de tecidos Osvaldo & Irmãos atendera a Zé Manuel. Esperava que da próxima vez as coisas saíssem diferentes das das vezes anteriores. Tudo porque o Zé enchia o saco de qualquer vendedor, por mais paciente que ele fosse. E os empregados das lojas, embora levem a sério o ensinamento de que “o cliente sempre tem razão”, tem hora em que o arrazoamento chega a um limite de tolerância, que o empregado e até mesmo os patrões pensam em mandar às favas tão impertinente do cidadão ou cidadã.
Pois o Zé Manuel chegava a uma dessas lojas mais com espírito de atormentar o vendedor do que para comprar. Depois de quase botar o mundo inteiro abaixo, o “antipático” mandava medir um pedaço de tecido que, descontados o tempo empatado nisso, o trabalho de rabiscar o total a pagar e o papel do bloco de notas, não dava para pagar nem a metade dessa operação ou, dependendo da compra, o papel no qual se discriminava a mercadoria adquirida. Isso quando ele comprava alguma cousa.
Tal era a fama dele, que os balconistas fugiam dele como o diabo foge da cruz. Quando ele entrava numa loja, os vendedores faziam o jogo do empurra-empurra, desviando-se da sua presença, escondendo-se atrás dos balcões, uma fugida para o banheiro, ou a desculpa de “o gerente está me chamando”... Azar do infeliz que não conseguisse escapar ao Zé Manuel, porque, além de ter de aturá-lo, seria motivo de mofa daqueles que conseguiram livrar-se dele.
Nunca ninguém havia dito a Zé Manuel da antipatia que os vendedores tinham por ele. Nem precisava, porque ela era patente. Estava estampada no rosto de cada um deles, apesar de se esforçarem para que ela ficasse muito bem dissimulada por trás daqueles sorrisinhos nervosos, do tratamento bem educado que dispensavam a tal incômodo freguês. Ele sabia disso, e parecia não ligar.
Da última vez que ele entrou no Armazém São Paulo, um vendedor novato o atendeu. O moço não conhecia a fama do freguês. O Zé queria comprar alguns metros de brim. O vendedor mostrara tudo que estava sobre o balcão e nada de ele se decidir. O pobre moço, talvez por medo de perder o emprego por não saber atender a um cliente, ou por inabilidade, descia peças pesadas das prateleiras, quase deixando-as vazias, atendendo aos pedidos que o Zé fazia, apontando as peças de tecido. Tudo isso já ia para quase uma hora e Zé nada de escolher o brim de que precisava. Por fim, deu um “obrigado” e voltou-se para deixar a loja, deixando o pobre vendedor embasbacado do outro lado do balcão.
Virando-se, de repente, e postando-se diante do rapaz, disse:
– Filho de uma égua é você!!
– Que é isso, senhor?! – respondeu o moço – Eu não disse nada!...
– Não disse, mas pensou!... – replicou o Zé.
Depois desse diálogo, Zé Manuel deixou a loja, deixando o rapaz ainda mais perdido e, também, indignado.
Assinar:
Comentários (Atom)