Um filho de uma égua!
Não era aquela a primeira vez que o balconista da loja de tecidos Osvaldo & Irmãos atendera a Zé Manuel. Esperava que da próxima vez as coisas saíssem diferentes das das vezes anteriores. Tudo porque o Zé enchia o saco de qualquer vendedor, por mais paciente que ele fosse. E os empregados das lojas, embora levem a sério o ensinamento de que “o cliente sempre tem razão”, tem hora em que o arrazoamento chega a um limite de tolerância, que o empregado e até mesmo os patrões pensam em mandar às favas tão impertinente do cidadão ou cidadã.
Pois o Zé Manuel chegava a uma dessas lojas mais com espírito de atormentar o vendedor do que para comprar. Depois de quase botar o mundo inteiro abaixo, o “antipático” mandava medir um pedaço de tecido que, descontados o tempo empatado nisso, o trabalho de rabiscar o total a pagar e o papel do bloco de notas, não dava para pagar nem a metade dessa operação ou, dependendo da compra, o papel no qual se discriminava a mercadoria adquirida. Isso quando ele comprava alguma cousa.
Tal era a fama dele, que os balconistas fugiam dele como o diabo foge da cruz. Quando ele entrava numa loja, os vendedores faziam o jogo do empurra-empurra, desviando-se da sua presença, escondendo-se atrás dos balcões, uma fugida para o banheiro, ou a desculpa de “o gerente está me chamando”... Azar do infeliz que não conseguisse escapar ao Zé Manuel, porque, além de ter de aturá-lo, seria motivo de mofa daqueles que conseguiram livrar-se dele.
Nunca ninguém havia dito a Zé Manuel da antipatia que os vendedores tinham por ele. Nem precisava, porque ela era patente. Estava estampada no rosto de cada um deles, apesar de se esforçarem para que ela ficasse muito bem dissimulada por trás daqueles sorrisinhos nervosos, do tratamento bem educado que dispensavam a tal incômodo freguês. Ele sabia disso, e parecia não ligar.
Da última vez que ele entrou no Armazém São Paulo, um vendedor novato o atendeu. O moço não conhecia a fama do freguês. O Zé queria comprar alguns metros de brim. O vendedor mostrara tudo que estava sobre o balcão e nada de ele se decidir. O pobre moço, talvez por medo de perder o emprego por não saber atender a um cliente, ou por inabilidade, descia peças pesadas das prateleiras, quase deixando-as vazias, atendendo aos pedidos que o Zé fazia, apontando as peças de tecido. Tudo isso já ia para quase uma hora e Zé nada de escolher o brim de que precisava. Por fim, deu um “obrigado” e voltou-se para deixar a loja, deixando o pobre vendedor embasbacado do outro lado do balcão.
Virando-se, de repente, e postando-se diante do rapaz, disse:
– Filho de uma égua é você!!
– Que é isso, senhor?! – respondeu o moço – Eu não disse nada!...
– Não disse, mas pensou!... – replicou o Zé.
Depois desse diálogo, Zé Manuel deixou a loja, deixando o rapaz ainda mais perdido e, também, indignado.
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