quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Reflexão sobre o tempo II

Que o tempo é matéria, isso é ponto pacífico, senão não seria mensurável. Entender, todavia, as entidades em que se divide é como embarcar num carrossel maluco...



                                  Carrossel tresloucado


               Nova manhã, novo dia...
              Um a mais a passar
              Como todos os dias passam.
              E nesse passar incessante,
              O ontem agora é o hoje,
              Hoje será o amanhã
              E o amanhã deixará de ser o
             Que é para ser o hoje que se foi...

             E assim o tempo vai
             Girando feito um carrossel maluco,
             Nesse passar confuso e alucinado
            Onde o presente é mais instável
            Que um acrobata no arame,
            Por se esvoaçar em trilionésimos
            De segundos...
           O presente absorve o futuro
           E, por se desfazer tão rapidamente,
          Vai assim remontando indefinidamente o passado.

           Enquanto presente e futuro, efêmeros
           Por natureza e singularidade,
          O passado goza da estabilidade,
          Recriando-se pelo jogo entre presente e futuro
          - esses operários de infinitas ruínas.

          O presente é a primeira e a última fronteira
          Entre futuro e passado...  

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Reflexões sobre o tempo

O que é o tempo, essa entidade concreta e amorfa?


O tempo



O tempo segue inexoravelmente seu destino
Sempre ao mesmo ritmo
Num silêncio de eterna monotonia.
Por onde passa, vai deixando as marcas
De seu passar em tudo ao longo de sua
Inquebrantável jornada.

O tempo de tudo e de todos é quando,
Até mesmo do velho carrilhão dorminhoco
na parede na sua eterna faina de acompanhar o tempo,
Despertando de quando em quando
Para anunciar o quanto de tempo ele contou.

O tempo não adianta nem atrasa,
Não para para descanso, porque nada o detém
E a sua infatigável rotina é seguir adiante,
Passando por cima de tudo e, como avalanche,
Transformando em ruínas e escombros.

O tempo passa na parede, e o retrato amarelado
Fixado no tempo não mais corresponde
Ao original modelo retratado...
Lembranças de um tempo passado.

Tudo passa... tem seu começo, meio e fim.
O tempo é um deus atemporal
Porque é senhor de todos e de seu próprio destino.
Ainda que a mente humana pense,
Não arde no passo nem tarda como a preguiça,
Porque o tempo não conhece a pressa
E é obstinado em cumprir sua sina.

O tempo é matéria em eterna evolução,
não tem idade, mas tudo
Carrega o fardo de sua passagem
Contado em segundos, minutos,
Horas, dias, anos, séculos e milênios.

O tempo é desgraça de nossa existência...

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Privacidade acima de tudo

Como um pequeno gato nos ensinar a zelar pela nossa privacidade.



Ora, tenha vergonha!


            Todo mundo sabe: os gatos não costumam deixar suas intimidades expostas. Por isso, quando têm de fazer suas necessidades, eles não fazem em qualquer lugar. Preferencialmente, onde haja areia ou terra solta. Eles fazem a desgraça dos pedreiros, contaminando areia com seus excrementos e as mãos deles com as larvas que se desenvolvem nas suas fezes e urina.
            Há pouco tempo assisti a uma cena reveladora do quanto os gatos levam a sério a questão da higiene e de sua privacidade. Estava observando o gato da vizinha. Ele saiu de casa, atravessou a rua e foi para a praça, que fica logo em frente. Tão logo o bicho chegou lá, começou a cheirar o ar. Depois, baixando a cabeça, pôs o focinho ao rés do chão e entrou a farejar feito um cão, indo de um lado ao outro, bem devagar.
Tateando e cheirando, o bichano andou, andou até encontrar algo. Ali ele parou, cheirou demoradamente seu achado. Eu não tirava meus olhos dele. Aí vi quando ele apoiou-se numa das patas dianteiras e começou com a outra a puxar terra e folhas secas em sua direção. Em seguida, fez o mesmo com a outra pata.
Passada essa operação, vi quando ele se afastou. Eu me mordia de curiosidade, mesmo sabendo o que ele havia feito. Não me contive. Levantei-me e fui até onde ele estivera. Lá estava uma porção de cocô de outro dia, coberto com um pouco de terra e algumas folhas em estado de decomposição não tão adiantado. Aquela cobertura malfeita foi ele que a fizera ainda há pouco.
Analisei o comportamento do animal e conclui que aquela atitude correspondia a de uma pessoa que, deparando algo errado feito por quem deveria ter feito justamente o contrário, corrigiria o malfeito em silêncio, censurando o autor de tamanha indiscrição, como a dizer:
– Que falta de modos!