Pãezinhos secos
Outro dia o Raimundinho e sua
mulher, Jovelina, discutiam, em tom de galhofa, sobre qual seria a pior dor que
alguém poderia passar, enquanto ela lhe espremia uma espinha doloridíssima, porque
inflamadíssima no nariz. Ele se contorcia em dores e, como das outras vezes que
lhe acontecera situação semelhante, Jovelina o chamara de frouxo, dizendo-lhe
que aquilo era besteira, comparado a dores de parto e pelas quais ela passara
quando do nascimento de seus filhos, todos de parto natural. A discussão acontecia justamente por
causa disso: a repetição, quase um mantra, de que nada mais doía que aquelas
dores.
Mas o Raimundinho, fazendo um
flashback de sua vida, especialmente de um período de sua infância, entrou a
refletir sobre uma dor que ele sentira e da qual jamais esquecera: a dor da
fome. Nessa sua viagem ao passado, ele se viu, em menino, com calças curtas, no
distante ano de 1962. Nunca sentira tanta fome antes como naquele momento de
sua vida. Podia comer tanto lhe dessem a comer e, mesmo assim, ele não se
fartava, porque sua fome se tornara crônica, de forma que sua saciedade não
poderia acontecer da noite para o dia.
Uma tarde de domingo o menino
Raimundinho foi com as irmãs visitar uma senhora – uma preta velha, não tão
idosa quanto parecia, que se chamava Benta. O menino sempre fora tímido, mas,
quando ele avistou um pequeno cesto de palhinha coberto por um plástico transparente
recheado de uns pãezinhos secos, cuidou de fazer amizade com Davi, o filho
caçula da senhora, pouquinho mais velho que ele. Raimundinho puxava conversa. Quis saber
o que fazia o pai do garoto. O outro respondeu que o pai trabalhava numa padaria.
Era tudo o que ele precisava para
dirigir a conversa para aqueles pães secos sobre o armário. Não demorou muito
para que pedisse um deles. Comeu outro e mais outro, com uma voracidade que
deixaara o Davi perplexo. Quando pediu outro, o garoto, talvez percebendo
que ele o usava mais para se empanturrar de comida do que por sua amizade,
disse-lhe um sonoro não, acompanhado do comentário:
– Você parece um morto de fome!
Numa coisa o menino Davi estava errado:
Raimundinho não “parecia” um morto de fome; ele era um morto de fome. Aquelas
palavras, ditas asperamente, doeram-lhe muito, mas não tanto quanto a dor que
ele sentia naquele momento, que continuaria à noite e no dia seguinte, ou até
quando ele não sabia.
Raimundinho, olhando para sua mulher,
sabia que ela dizia a verdade, repetindo a mesma ideia. Todavia, não lhe era
dado conhecer a verdade, obviamente por conta de sua condição de homem. Durante
sua vida, ele já sentira dores cruciantes; entretanto, tinha para si que
nenhuma dor podia ser tão avassaladora quanto a dor da fome. A fome a que se
referia não era a fome quotidiana que começa a espicaçar o estômago de todos nos
momentos que antecedem o almoço e o jantar, mas aquela provocada pela escassez
de alimentos, como numa situação de seca.
A fome dói e nenhum analgésico existe
para aliviá-la senão comida, muita comida durante um bom tempo.