domingo, 10 de junho de 2012

A dor da fome

A fome dói como chaga cancerosa, prinipalmente quando falta seu melhor analgésico: a comida.


Pãezinhos secos

            Outro dia o Raimundinho e sua mulher, Jovelina, discutiam, em tom de galhofa, sobre qual seria a pior dor que alguém poderia passar, enquanto ela lhe espremia uma espinha doloridíssima, porque inflamadíssima no nariz. Ele se contorcia em dores e, como das outras vezes que lhe acontecera situação semelhante, Jovelina o chamara de frouxo, dizendo-lhe que aquilo era besteira, comparado a dores de parto e pelas quais ela passara quando do nascimento de seus filhos, todos de parto natural. A discussão acontecia justamente por causa disso: a repetição, quase um mantra, de que nada mais doía que aquelas dores.
            Mas o Raimundinho, fazendo um flashback de sua vida, especialmente de um período de sua infância, entrou a refletir sobre uma dor que ele sentira e da qual jamais esquecera: a dor da fome. Nessa sua viagem ao passado, ele se viu, em menino, com calças curtas, no distante ano de 1962. Nunca sentira tanta fome antes como naquele momento de sua vida. Podia comer tanto lhe dessem a comer e, mesmo assim, ele não se fartava, porque sua fome se tornara crônica, de forma que sua saciedade não poderia acontecer da noite para o dia.
            Uma tarde de domingo o menino Raimundinho foi com as irmãs visitar uma senhora – uma preta velha, não tão idosa quanto parecia, que se chamava Benta. O menino sempre fora tímido, mas, quando ele avistou um pequeno cesto de palhinha coberto por um plástico transparente recheado de uns pãezinhos secos, cuidou de fazer amizade com Davi, o filho caçula da senhora, pouquinho mais velho que ele. Raimundinho puxava conversa. Quis saber o que fazia o pai do garoto. O outro respondeu que o pai trabalhava numa padaria.
Era tudo o que ele precisava para dirigir a conversa para aqueles pães secos sobre o armário. Não demorou muito para que pedisse um deles. Comeu outro e mais outro, com uma voracidade que deixaara o Davi perplexo. Quando pediu outro, o garoto, talvez percebendo que ele o usava mais para se empanturrar de comida do que por sua amizade, disse-lhe um sonoro não, acompanhado do comentário:
– Você parece um morto de fome!
Numa coisa o menino Davi estava errado: Raimundinho não “parecia” um morto de fome; ele era um morto de fome. Aquelas palavras, ditas asperamente, doeram-lhe muito, mas não tanto quanto a dor que ele sentia naquele momento, que continuaria à noite e no dia seguinte, ou até quando ele não sabia.
Raimundinho, olhando para sua mulher, sabia que ela dizia a verdade, repetindo a mesma ideia. Todavia, não lhe era dado conhecer a verdade, obviamente por conta de sua condição de homem. Durante sua vida, ele já sentira dores cruciantes; entretanto, tinha para si que nenhuma dor podia ser tão avassaladora quanto a dor da fome. A fome a que se referia não era a fome quotidiana que começa a espicaçar o estômago de todos nos momentos que antecedem o almoço e o jantar, mas aquela provocada pela escassez de alimentos, como numa situação de seca.
A fome dói e nenhum analgésico existe para aliviá-la senão comida, muita comida durante um bom tempo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Situações desagradáveis do quotidiano

Quem é que nunca viveu uma situação desagradável? Não precisa de muita imaginação para se fazer uma lista delas. Basta que você faça um flashback da sua vida para ver por quantas já passou.


Incômodos


            Depois de ficar sabendo pela tv do assassinato de um executivo de uma empresa da indústria de alimentos nacional e, principalmente, do modus operandi da assassina, fiquei pensando sobre como fora fácil para ela dar cabo do marido e, em seguida, após consumar o ato ali no apartamento e ver o corpo, o cadáver estendido no chão, a dificuldade de dar sumiço à principal prova do crime que cometera.
Nada mais incômodo para um assassino do que se livrar do corpo de sua vítima, notadamente aquele que eu chamo de “assassino acidental”, justamente para distinguir do assassino contumaz ou profissional. O cadáver cria como que uma espécie de ligação tão forte entre ele e aquele que o produziu, que parece cola ou outra substância pegajosa que se gruda, exatamente quando a preocupação é não deixar nenhum sinal que estabeleça essa ligação.
            Foi, após esse breve momento de reflexão, que entrei a pensar naqueles que eu considero como os piores incômodos que uma pessoa possa ter.
            Você calça um sapato, tênis ou sapatilha, começa a andar e, de repente, sem saber de onde nem como, sente um corpo estranho machucando seu pé. Você tenta esquecer que aquilo está ali, mas não consegue. Elegante ou não, você para, desamarra os cadarços (quando houver) e lança fora aquele incômodo.
            Agora pense numa mala grande. Encha essa mala do que for necessário para fazer uma longa viagem. Ela certamente ficara pesada. Agora, imagine que essa mala não é dessas modernas, que possuem rodinhas deslizantes e uma alça telescópica. Durante a viagem, acontece, então, o pior: a alça de sua mala se rompe e, agora, você se vê com uma mala grande, pesada e sem alça. Quer incômodo maior?
            Pode não ser o maior dos incômodos, todavia esse tem lá sua grandeza. Você vai à feira e não leva o carro. Lá, entre outras coisas, resolve levar para casa uma melancia. Como são muitos em casa os que gostam da fruta, você opta por levar, senão a maior de todas, pelo menos uma de peso médio. A fruta, além da casca lisa, tem um formato que não se coaduna à sua anatomia, e ela, além de machucar, durante as tentativas de adequação entre o corpo que a carrega, ameaça jogar seu dinheirinho no lixo, ao querer escapar às suas mãos.
            Meu Deus, como é terrível! Você procura algo que está em algumas coisas acima de sua cabeça. Ao mexer ou remexer nelas, um corpo estranho, um cisco, como um grão de areia, por exemplo, cai num de seus olhos. Certamente isso já aconteceu a você. Ninguém melhor que sua pessoa para descrever a sensação desagradável que isso provoca. E quando alguém vem lhe dizer que isso não é nada, o melhor é responder que “pimenta nos olhos dos outros é refresco.”
            Uma noite, eu me lembro, queria assistir a um telejornal e não conseguia me concentrar por causa do canto estridente de um grilo, com qual não conseguia atinar onde estava, porque um grilo, além de se calar, ao sentir a nossa aproximação, você o escuta aqui, mas ele está ali e vice-versa. Quer incômodo maior que um grilo apaixonado, fazendo seresta para sua amada? Acho que até ela mesma diria, irritada: “pare com isso!”
            No rol de tantos incômodos, que não irei aqui enumerá-los todos, citarei dois de ordem fisiológica e dois de ordem patológica.
Você se encontra em determinado lugar ou situação e vem aquele aviso de que precisa ir a um banheiro e o tal banheiro simplesmente não existe. O primeiro o aviso se trata de uma cólica intestinal que ameaça fazer com que você borre as calças imediatamente; o segundo, menos agressivo, nem por isso, menos incômodo, é aquele que você começa a sentir a bexiga pressionando o pé da barriga como se ela fosse explodir.
Os incômodos de ordem patológica são aquela dor de ouvido ou de dente iminente, que ameaça se concretizar. Quando concretizadas, você sabe que, como qualquer dor, essas, também, por mais que você se esforce em pensar que não existam, elas estão lá cutucando, machucando, assim como fazem os torturadores.
             Creio que a lista que apresentei é totalmente subjetiva. Portanto, o que é incômodo para mim, pode não ser para você. Em conhecendo outros, faça você mesmo sua lista, completando a frase: “nada é mais incômodo que:...”

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O que é a felicidade?

Duas mulheres e duas maneiras de ver a vida. Uma é feliz, a seu modo; a outra, ainda que tente, também a seu modo, encontrar a felicidade, não é feliz.


A vida como ela é

         Nhá Rita - a mulher do meu patrão -  muito rica e tão bonita, com a licença da expressão e do marido, se me permite dizer: ai, meu Deus, que mulherão! Contrariando o esposo, nunca quis ter filhos, para não envelhecer. Nervosa, chora e sofre muito por não ter o que fazer.
Esbelta de corpo e fina de espírito, o Coronel Jesuíno – seu marido e coronel de patente comprada – faz tudo o que ela quer: criadas para lhe dar banhos e vesti-la, para cozinhar, lavar roupa, limpar casa, para passear ao campo, quando quer espairecer. Ele pensa que meninos iam lhe fazer um bem danado e a ele também. Mas, apesar de querer uma filharada correndo pela casa, a recusa da mulher, de certa forma o agrada, porque, ao contrário das mulheres dos outros fazendeiros ricos iguais a ele, Nhá Rita continua  sendo a mais bonita, a mais bem cuidada, a mais vistosa de todas elas. Não é à toa que ele vê os olhos cobiçosos dos outros maridos em cima dela.
Enquanto isso, eu e minha nega vivemos num ranchinho que eu fiz. Todo dia ela atiça o fogo na panela, batuca o pilão com arroz e descaroça o algodão para o tear. Depois de tudo isso, ainda tem a roupa para lavar; a catapora, a tosse braba, o sarampo e o resfriado dos quinze filhos que ela tem para cuidar; pote na cabeça, lá vai para riacho buscar água para o xerém para cozinhar.
Lá do no meio do roçado, enquanto, com meu sacho, eu ponho no limpo o milho, o arroz, a mandioca e o feijão, vejo minha nega trabalhando, de um lado para outro, sem parar. Mas, tão logo lhe sobra um tempinho, ela tira o leite da cabrinha e solta o bode na quinta para pastar.
Tudo isso ela faz com satisfação. Jamais se queixa, não diz nada e se acha bem feliz. E, quando chega a noite, e os meninos vão dormir, a gente ainda arranja um tempinho, desse tantinho, e, aí, ela me faz um agrado e eu lhe faço um carinho, que eu não quero nem dizer!... Só sei que com mais outro tempo, pouco mais maiorzinho, que passa devagarinho, devagarinho, ela me diz baixinho, bem junto ao ouvido, feliz como não se vê, que outro moleque sambudinho logo, logo vai nascer.