quarta-feira, 6 de junho de 2012

O que é a felicidade?

Duas mulheres e duas maneiras de ver a vida. Uma é feliz, a seu modo; a outra, ainda que tente, também a seu modo, encontrar a felicidade, não é feliz.


A vida como ela é

         Nhá Rita - a mulher do meu patrão -  muito rica e tão bonita, com a licença da expressão e do marido, se me permite dizer: ai, meu Deus, que mulherão! Contrariando o esposo, nunca quis ter filhos, para não envelhecer. Nervosa, chora e sofre muito por não ter o que fazer.
Esbelta de corpo e fina de espírito, o Coronel Jesuíno – seu marido e coronel de patente comprada – faz tudo o que ela quer: criadas para lhe dar banhos e vesti-la, para cozinhar, lavar roupa, limpar casa, para passear ao campo, quando quer espairecer. Ele pensa que meninos iam lhe fazer um bem danado e a ele também. Mas, apesar de querer uma filharada correndo pela casa, a recusa da mulher, de certa forma o agrada, porque, ao contrário das mulheres dos outros fazendeiros ricos iguais a ele, Nhá Rita continua  sendo a mais bonita, a mais bem cuidada, a mais vistosa de todas elas. Não é à toa que ele vê os olhos cobiçosos dos outros maridos em cima dela.
Enquanto isso, eu e minha nega vivemos num ranchinho que eu fiz. Todo dia ela atiça o fogo na panela, batuca o pilão com arroz e descaroça o algodão para o tear. Depois de tudo isso, ainda tem a roupa para lavar; a catapora, a tosse braba, o sarampo e o resfriado dos quinze filhos que ela tem para cuidar; pote na cabeça, lá vai para riacho buscar água para o xerém para cozinhar.
Lá do no meio do roçado, enquanto, com meu sacho, eu ponho no limpo o milho, o arroz, a mandioca e o feijão, vejo minha nega trabalhando, de um lado para outro, sem parar. Mas, tão logo lhe sobra um tempinho, ela tira o leite da cabrinha e solta o bode na quinta para pastar.
Tudo isso ela faz com satisfação. Jamais se queixa, não diz nada e se acha bem feliz. E, quando chega a noite, e os meninos vão dormir, a gente ainda arranja um tempinho, desse tantinho, e, aí, ela me faz um agrado e eu lhe faço um carinho, que eu não quero nem dizer!... Só sei que com mais outro tempo, pouco mais maiorzinho, que passa devagarinho, devagarinho, ela me diz baixinho, bem junto ao ouvido, feliz como não se vê, que outro moleque sambudinho logo, logo vai nascer.

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