Fama necat virum*
A Cascavel dizia a um Calango, vangloriando-se:
–Senhor Calango, entre todos os animais peçonhentos, incluindo as minhas irmãs de raça, sou eu que tenho o veneno mais poderoso!
– Que nada, senhora! – contestou o Calango, que nem venenoso era. – A senhora mata mais pela fama do que pelo veneno que tem!.
A cobra sorriu-lhe. E num desafio zombeteiro, perguntou:
– Quer experimentar?
– Claro que não! – respondeu. – Mesmo porque isso não vai provar nada, e a senhora vai continuar matando do mesmo jeito. – acrescentou.
– Não e não! – protestou a Cascavel. – Veja o que pensam disso a Coral, a Jararaca, a Urutu e a Surucucu-de-fogo. Todas elas reconhecem o poder letal do meu veneno.
– Ora bolas! E quem vai fiar-se em parecer de parentes?! – disse-lhe o Calango, sarcástico.
– Queira o senhor ou não, eu ainda sou a melhor! – respondeu a Cascavel, já sem argumentos.
– Falar é fácil. Para mim, o que vale é a prova dos noves! Sou como São Tomé: só acredito vendo!...
– Falo com a consciência de quem sou e do que sou capaz. – disse a Cascavel, com arrogância.
E o Calango, olhando-a, em desafio:
– Ah é?! A senhora topa fazer um teste? Assim a gente põe um ponto final nessa discussão.
A Cascavel estremeceu, mas só por dentro. E, para não dar provas de que não confiava em seu taco, respondeu:
– Vamos. Diga lá que teste é esse!
– É o seguinte – começou o Calango – eu e a senhora vamos ficar escondidos, no mato, ao lado de uma vereda. Quem passar por ela – homem ou mulher, tanto faz – a senhora pica, e eu apareço para o picado. Depois, quando vier outro, pico eu, e a senhora aparece. Entendeu? De acordo?
A Cascavel fez que sim, com a cabeça, e os dois rumaram para a vereda mais próxima.
Com o dia findo, estavam os homens voltando de suas roças. Não demorou muito para que aparecesse o primeiro. Era um sujeito já de meia idade. A Cascavel preparou o bote e... zapt! Picou-o no calcanhar. O homem deu pulo de lado e voltando-se, ao mesmo tempo, para o ponto da vereda onde sentira a picada, ele respirou aliviado, ao avistar um pequeno calango, em atitude de ataque e defesa.
– Ah! É apenas um calango! – pensou. E desapareceu no caminho.
O Calango olhou para a Cascavel, interrogativamente. Ela entendeu bem aquele olhar, mas o seu gesto foi o de que ainda não estava convencida.
Minutos depois, veio o segundo lavrador. Trazia a enxada ao ombro e uma cabaça, presa ao cabo, às costas. Pitava um toco de cigarro de palha, no a canto da boca. Aproximou-se placidamente.
– Agora – sussurrou o Calango – é a minha vez!
O homem vinha com as pernas expostas. A calça estava arregaçada até os joelhos. O Calango, mesmo sem dentes, conseguiu, mais pela força que pelo poder de suas serrilhas, produzir um pequeno ferimento de onde começou a brotar sangue. O sujeito deu um pulo de lado, levando a mão à ferida. Olhou sobressaltado para a vereda e, ao avistar a cascavel enroscando-se e enrodilhando-se para desferir outro bote, gritou:
– Meu Deus!
Não se sabe se de raiva, de ou de desespero, ele vibrou na cabeça da cascavel tantas enxadadas, que ela ficou com a cabeça completamente esmigalhada.
No dia seguinte, à mesma hora, o calango viu passarem com ele numa rede a caminho do cemitério onde o plantaram numa cova bem funda.
*Fama necat virum (A fama mata o homem)