Foi que fiz ao recordar os meus primeiros de sala... como aluno.
Recordar é reviver
Meu irmão servira na Aeronáutica nos 60. Quando minha avó morreu, papai – que era analfabeto – foi à cidade vizinha e ditou o seguinte telegrama para o homem do Correio: “Mamãe faleceu dia 25 PT Abraço PT Luizinho PT”.
Não se sabe por que a pessoa, ao codificar a mensagem (o telégrafo era uma maquininha que transpunha as mensagens para o Código Morse) e escreveu assim: “Sua mãe faleceu dia 25PT Abraço PT Luizinho PT.” (Em linguagem telegráfica não se usam os sinais de pontuação. PT é abreviatura de ponto).
Ao saber de tão infaustosa notícia, ele cuidou de vir até onde nós morávamos. Como naqueles anos as coisas não eram tão fáceis, o quartel deu a ele trinta dias para ir e voltar. Depois de uma viagem cheia de atropelos, chegou em casa trazendo na bagagem umas revistas sobre aviação. Quando retornou, deixou essas revistas que eu as guardei para mim.
Tinha eu completado sete anos. Estava na hora de começar na escola. Disseram que, no ano seguinte, eu ia estudar. Fiquei muito animado e, em meio aquele arrebatamento, disse a uma das minhas irmãs, enquanto segurava uma daquelas revistas nas mãos, que já sabia ler. Disse lá quaisquer coisas sem sentido e ela ficou achando graça de minhas pretensões. Ora, eu lendo sem nunca ter ido à escola e logo numa revista editada em espanhol, como fiquei sabendo muito tempo depois.
No ano seguinte, fui para a escola. Levava um caderno de caligrafia, um lápis com borracha e uma Carta do ABC. Dificuldade foi aprender os nomes das letras. Um tormento para minha cabeça. A professora dividiu a primeira página em três partes. Em cada uma havia sete letras para eu repetir entre as 7 e 11 horas da manhã. Logo me cansei de repetir os nomes delas. Queria mesmo era ir brincar com primo Raimundo, na casa de tio Abdon.
Onze horas a professora começava a “tomar” a lição das crianças. Quando chegou a minha vez, eu li bem rapidinho os nomes das sete letras para aquele dia. Então começou o meu tormento, quando a professora pegou uma folha de caderno, fez um furo redondo no meio dela e colocou-a sobre as letras que eu acabara de ler com tanta habilidade. Então ela começou a me perguntar, fazendo o papel deslizar para a direita e esquerda e vice-versa, de cima para baixo e vice-se, repetindo a mesma pergunta:
– Que letra é esta? Que letra é esta?...
E eu me enrolava todo. Resultado: a lição ficou para o dia seguinte.
Foram umas sucessões de dias seguintes naqueles três blocos de sete letras que somente passados trinta dias eu conclui o aprendizado da primeira página da Carta do ABC. Hoje eu compreendo as razões para o meu fracasso: ensinavam-se os nomes das letras; não os sons que elas podiam representar. Muita gente da minha geração até hoje acha que existem apenas as cinco vogais: a, e, i, o, u. Quando afirmo que são doze, elas caçoam de mim e respondem: na escola, eu aprendi assim.
Dominadas as letras, passei a juntá-las e a formar sílabas e depois as palavras. No caderno, desenhava as letras de fôrma e as letras manuscritas. Quando a letra não bem, a professora desenhava uma e mandava que a cobrisse até que dominasse sua escrita. No ano seguinte, comecei a estudar uma cartilha. Havia palavras e os objetos que as nomeavam. Havia textos que contavam histórias, a maioria delas de conteúdo moralizante.
Eu me lembro muito bem dessas histórias. Uma delas era sobre Frederico. Frederico, além de preguiçoso, era um menino desobediente e mau. Ele não gostava de ir para escola e vivia enganando sua mãe. Saía dizendo que ia estudar, mas, no caminho, escondia os livros e ia para o mato atrás de passarinhos. Ele costumava subir nas árvores, tirar os filhotes dos ninhos e matá-los.
Certo dia, o Frederico subiu numa árvore bem alta para tirar o ninho de uma gralha. Quando estava pegando os filhotes, a mãe chegou e o atacou com bicadas. A gralha bicou os olhos de Frederico que ficou cego para o resto da vida.
Havia ainda poemas que eu gostava de recitá-los em voz. Era um poema de Guilherme Almeida. Por trás do poema, havia uma ilustração: uma fogueira apagada, carvões e a fumaça subindo. O poema era este:
Coração
Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!
Guilherme de Almeida
(1890-1969)
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!
Guilherme de Almeida
(1890-1969)
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