quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

História de caçador

Dizem que, em matéria de mentira, ninguém supera um caçador nem um pescador. Agora, quem supera o caçador? O pescador? Duvido. E o pescador, quem o supera? O caçador, eu também tenho lá as minhas dúvidas. Para acabar com essa história de quem veio primeiro: o ovo ou a galinha, leia essa historinha que eu, que não sou pescador, escrevi especialmente para você.


As cobras


Caía a tarde. O sol incendiava o horizonte. Um homem seguia seu caminho. Estava só. Portanto, para o seu relato não existe uma só testemunha. E, ainda que houvesse, bem que elas poderiam passar por mentirosas.
Aconteceu numa curva do caminho, debaixo de uma árvore frondosa. De longe, ele avistou algo se contorcendo e se elevando da terra. Como um pêndulo, fazia um vaivém que mais se assemelhava a dois arbustos dançando e enroscando-se pela ação do vento.
O homem aproximou-se cautelosamente. Só muito perto, foi que ele deu-se conta de que eram duas serpentes numa dança tétrica. Eram duas cascavéis bem vividas em anos. As duas engalfinhavam-se numa luta titânica de vida ou morte. Um verdadeiro espetáculo de terror no momento de maior romantismo quando o Sol se despede da humanidade.
Nesse embate mortal, uma delas abocanhou a cauda da adversária, começando, de imediato, a engoli-la. A oponente abocanhada não se fez de rogada e abocanhou a cauda de sua rival, engolindo-a também. E cada uma cuidou de fazer a sua parte: engolirem-se mutuamente.
E assim as duas serpentes, famosas pelo seu veneno, foram engolindo-se, engolindo-se, de tal modo que, passada uma hora, não restou um naco delas no chão. Tudo o que restou foram os rastros e uma mancha molhada de saliva no chão.

Teresina, dezembro 2011.

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