Este é um pequeno ensaio a respeito da confusão comum, presente nos livros didáticos, no tocante à classificação de vários substantivos quanto ao gênero. O que fazer, em sala de aula, para evitar essa confusão quanto ao conceito de gênero e o de sexo quando se lida com as palavras?
Gênero ou sexo, eis a questão
By, Elizamar R. da Costa
No mundo gramatical, há muito vem se cometendo erro ao confundir as noções de gênero e sexo. Isso acontece quando ensinamos as crianças, adolescentes e adultos que certas palavras são o feminino da palavra x ou y.
Aprendi na escola e tenho visto muita gente ensinar que o feminino de bode é cabra, o de boi é vaca, o de carneiro é ovelha e outros tantos femininos que abundam nas gramáticas e livros didáticos. A verdade não é bem assim. Cabra, vaca e ovelha não são, nunca foram e jamais serão, respectivamente, o feminino de bode, boi e carneiro.
Não se pode confundir o conceito de gênero – uma realidade estritamente gramatical – com o de sexo que, de forma alguma, tem relação com o aspecto gramatical. Portanto, o que devemos ensinar é que não existe o feminino das palavras bode, boi e carneiro. Cabra, vaca e ovelha são as fêmeas do bode, do boi e do carneiro, respectivamente. Na verdade, as palavras bode, boi e carneiro pertencem ao gênero masculino, por se poder antepor-lhes um determinante também do gênero masculino, como os artigos, por exemplo. Por se tratarem de palavras que não se flexionam para gerar a forma feminina correspondente, dizemos que essas palavras são masculinas de gênero único. De igual modo, as palavras cabra, vaca e ovelha pertencem ao gênero feminino, uma vez que se pode antepor a elas um determinante feminino, como as variantes femininas dos artigos. Assim, pode-se dizer que essas palavras são femininas de gênero único.
O mesmo se pode afirmar em relação aos substantivos ditos epicenos. Em vez desse nome esquisito, bastaria apenas informar, por exemplo, que as palavras borboleta, cobra, jacaré, lagarta, que não se flexionam para gerar formas femininas correspondentes, mas que aceitam que se lhes anteponha um determinante masculino ou feminino, se chamem de substantivos de gênero único masculino e substantivo de gênero único feminino.
A determinação da forma feminina de uma palavra masculina está na dependência direta da flexão dessas palavras, através da permuta da desinência nominal –o para –a, por exemplo, menin-o/menin-a. Caso essa flexão ocorra, é preciso ter em mente se a nova forma gerada mantém a mesma significação daquela que a gerou. Não se pode dizer que cavala e banheira, por exemplo, são o feminino de cavalo e banheiro, respectivamente, uma que se tratam de realidades diferentes. Nesse caso, cavalo e banheiro são substantivos de gênero único masculino, enquanto que cavala e banheira são de gênero único feminino.
No caso dos substantivos ditos sobrecomuns, ainda que exista apenas uma forma para designar os seres do sexo masculino e feminino, a denominação é a mesma, sendo a palavra um substantivo de gênero único masculino, se a ela só se puder antepor um determinante masculino, como por exemplo, as palavras cônjuge e monstro. Serão de gênero único feminino aquelas que igualmente possuam uma única forma para designar os seres do sexo masculino e feminino, admitindo que se lhes anteponham apenas determinantes femininos, como por exemplo, as palavras vítima e criança.
Relativamente aos substantivos chamados de comum de dois gêneros, em que também só existe apenas uma forma para designar os seres do sexo masculino e feminino, mas que admitem que se faça a permuta de um determinante masculino para um feminino, mesmo não ocorrendo flexão na palavra, a determinação do seu gênero masculino ou feminino dependerá do gênero de seu determinante. Assim, não se pode dizer, por exemplo, que as palavras colega, estudante, artista e outras são substantivos de gênero masculino ou feminino, mas substantivos de gênero único masculino ou de gênero único fminino.
Substantivos como o capital/a capital, o grama/a grama, o cabeça/a cabeça, por exemplo, também recebem a denominação, respectivamente, de substantivos de gênero único masculino (o capital, o grama, o cabeça) e substantivos de gênero único feminino (a capital, a grama, a cabeça) por passarem a designar realidades diferentes, com a permutação masculino/feminino de seus determinantes.
Nos casos dos substantivos masculinos com desinência zero em que a flexão acontece por acréscimo da desinência feminina –a, também não valem as denominações de gênero único, porque, nesse caso ocorreu uma flexão que deu origem a uma forma feminina correspondente. Assim, pode-se dizer que a palavra professora é a forma feminina da palavra professor.
Quanto aos substantivos ditos de gênero dúbio ou flutuante, muitas vezes por causa de suas origens, serão masculinos e femininos, uma vez que se aceita dizer, por exemplo, o diabetes – a diabetes, o aluvião – a aluvião.
É difícil, mesmo para uma pessoa adulta, fazer a distinção entre o que é gênero e o que é sexo, quanto mais em se tratando de uma criança. Todavia, isso possível, deixando bem claro que uma coisa é a palavra e outra, o ser que representa. Um exemplo fácil de promover essa assimilação, é mostrar que as palavras copo e lápis, por exemplo, não são do sexo masculino e, sim, do gênero masculino. Qual é a fêmea do copo? E a fêmea do lápis? A fêmea do cachorro é a cachorra, mas a palavra cachorro pertence ao gênero masculino, da mesma que a palavra cachorra pertence ao gênero feminino.
E como resolver, então, o caso dos substantivos cão e cadela?
Em latim, cão (canis -is) é cão mesmo - o macho -, enquanto que cadela, do latim catella, além de ser a fêmea do cão, seu significado é "pequena cadela". Por não manterem a mesma significação, o substantivo cão seria classificado como substantivo de gênero único masculino e cadela substantivo de gênero único feminino. Se existise a forma cadelo - cão pequeno - da qual cadela seria sua variante, nesse caso haveria uma forma masculina e corresponde à feminina: cadelo/cadela.
Como se vê, o assunto é de digestão difícil. Mesmo assim é possível ensinar que as palavras podem pertencer aos gêneros masculinos e feminino. O que elas não têm é sexo; sexo tem os seres que elas representam.
Em Teresina (PI), 26/11/2011, às 3:52 a.m.