quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Criacionismo

No pouco que estudei Filosofia, me deparei com aquela famosa situação do "decifra-me ou devoro-te", ou seja, a famosa espada de Damócles. Você acredita que nós e tudo que rodeia foi feito assim num passe de mágica? Se crê nisso, você criacionista. Ao contrário disso, você acredita que tudo à nossa volta, inclusive nós mesmo, é tudo resultado de um processo de evolução? Se crê nisso, você é evolucionista. E Deus como fica, se a sua religião afirma que "Deus creavit caelum et terram intra sex dies et quievit die septimo"? A você só resta uma saída nesse momento: criacionista ou evolucionista. Pelo que você se decide?
 Isso é uma brncadeira antes de convidá-lo a ler este poemeto.


Criacionismo


Num repente, tudo se cria
Com um estalar de dedos,
Pura magia!

Fiat lux!
E as trevas se rendem
E o abismo deixa de ser abismo.

E assim peixes
Invadem as águas,
As aves pelo céu voam,
As plantas, os insetos
E os grandes animais
Surgem num passe de mágica.

Depois o homem
De amálgama amorfa
Semelhante a seu criador
Ganha a vida apenas
Por seu sopro.

E a mulher,
Do homem rouba-lhe
Uma costela enquanto dorme,
Sem dor, sem incisão
Sem cicatriz.

Fiat! Fiat! Fiat!
E tudo a seu mando se faz!...

Ah, meu Deus, se a vida fosse
Assim tão fácil!...



Teresina/30 nov. 2011.

Fantasia ou Mistificação?

Papai Noel, que coisa mais bizarra, hein? Acreditar em Papel Noel é crê no sexo dos anjos. Papai Noel, uma mentira que dá lucro. E você? Acredita no sexo dos anjos? Então você acredita em Papai Noel!


Fantasia ou mistificação?


            Luzes coloridas, brilhantes, anjinhos, bolinhas de vidro tudo sobre um pinheirinho e aquela musiquinha:

“jingle bell, jingle Bell, jingle all the way...”

            Lembro-me – eu era criança – de ouvir dizer que o Papai Noel, na noite de Natal, entrava, sorrateiramente, nas casas, para deixar um lindo brinquedo no sapatinho, no chinelo, debaixo da cama ou da rede das crianças enquanto elas dormiam.
            No chinelo empoeirado debaixo de minha rede (porque pobre dorme em rede por necessidade; rico, por exotismo) nunca apareceu um mísero dos míseros brinquedos quanto mais aquele carrinho com boleia e carroceria de madeira, igualzinho a um de verdade, um automóvel, trenzinho e sua estrada de ferro ou a bicicleta tão desejada. No entanto, logo pela manhã, os filhos das famílias abastadas saíam de suas casas, sorridentes e felizes. Os meninos com seus brinquedos coloridos, uma bola, um carrinho, um pequeno violão, uma gaita; e as meninas com suas bonecas de variados tamanhos, ás vezes, maiores que as donas, pedindo papinha, chorando, abrindo e fechando os olhos... E eu me perguntava por que o Papai Noel só visitava a casa daqueles meninos ricos que, muitas vezes, nem precisam daqueles brinquedos.
            Uma vez me disseram que era porque eu não tinha sido um menino obediente, ou porque tivesse ficado acordado quando o Papai Noel passava, e ele não queria ser visto pelas crianças. Como assim, se o Papai Noel, que gostava tanto de crianças, não queria ser visto por elas?
Tudo empulhação! Empulhação, porque eu fora uma criança obediente, respeitosa com os pais, os adultos, com as pessoas que eu não conhecia. “Honra teu pai e a tua mãe” – eu aprendi desde cedo na Escola Dominical de nossa igreja. Para o Papai Noel, eu não era um menino bonzinho? Então eu me empenhava em ser um menino correto, para que no próximo Natal o Papai Noel me recompensasse.
Pobre de mim! O tal velhinho bom, esse se esqueceu de colocar o meu endereço na sua agenda.
Com o tempo, eu fui crescendo, no físico e no entendimento. Ainda criança eu já percebia que esse idolatrado Bom Velhinho era grande empulhação. Papai Noel é uma mentira a serviço dos comerciantes de toda ordem. O Bom Velhinho é preconceituoso, e a sua discriminação é puramente social. O tal velhinho é um agente do Capitalismo.
E onde vive esse Papai Noel? Esconderam-no na Lapônia, um lugar inóspito, distante, portanto, muito propício para esconder uma fraude. E ainda há aqueles que vivem a perpetuar e a incutir essa mentira na cabeça das crianças, principalmente daquelas mais carentes, que vivem a escrever cartinhas para um fantasma.
Papai Noel é fraude; é pura mistificação.

Teresina/30 nov. /2011


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mais poesia

Dois poemas fresquinhos, saídos, agora mesmo, da fôrma. Se tiverem eles algum sabor para você, deliciese, então!

Infância

Depois que um vendaval sobre a terra se abatia
Na minha porta se formava um pequeno rio
Qual serpente coleante pela valas ele escorria
E eu, na chuva, a brincar tremia de frio

Eu via aquele rio deslizar ligeiro
Ondulante a colear como cascavel
Dentre os meninos era o primeiro
A fazer um barquinho de papel.

Eu punha nesse rio meu barquinho frágil
E nele meus dourados sonhos de criança
De uma vida repleta só de esperanças
A voar, na correnteza, intrépido e ágil.

Então, depois que o meu rio secava
Meu barco e os meus sonhos via encalharem
Um gosto de desilusão em mim ficava
Vendo meus sonhos em terra naufragarem.

Teresina/29 nov. /2011.


Stipendia peccati mors



Não há verdade que não seja contestável

Porque nenhuma é, de todo, absoluta.

O que seria de nós se ainda acreditássemos

Que o universo em torno da Terra girasse

E não houvesse um Galileu

Que o próprio corpo arriscasse

Ao fogo que a intolerância queimava

Quem a ordem do mundo mudar ousasse?



A verdade de hoje nem sempre é mesma

De um amanhã que ainda se aventa

Porque o homem – esse mar em atormenta,

Vive a procurar respostas

A tudo que o descontenta.



Uma verdade, no entanto, insofismável,

Da mente humana inteira se apodera:

Que nenhum homem, com rumo e norte,

Aqui sobre a face do planeta Terra

Jamais escapará à sina da imiga morte.





Teresina/ 29 nov./2011


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um pouco mais de poesia não faz mal a ninguém

Todo mundo pode ser poeta. Não direi professional; mas amadoristicamente, cada um pode sê-lo. Não se preocupe com rimas ou outros recursos da forma: o mais importante é o conteúdo. Abra seu coração e deixe as palavras fluirem livremente. A forma é prisão; o sentimento é liberdade. Depois que sua mão derramar sobre o papel tudo lhe vai na mente, só então você organize na forma que achar melhor.



Lição sobre as flores

Penúltima e, muitas vezes, a última
Fase da metamorfose vegetal,
Eclode de um botão a flor
Nem sempre admiravelmente bela
Nem sempre de olor agradável.

Ela se faz presente nos jardins
Nas mesas de cerimoniais festins
Ou na lapela de ternos impecáveis
Com a pureza do branco ou do carmim.

A flor está em nossas vidas
Nos momentos de agruras
Ou nos momentos felizes
Sempre ternas, sempre amigas.

E ainda, em vida, aquele que a rejeita,
É ela que o perfuma e enfeita,
E o acompanha para o silêncio profundo
E para a solidão de sua tumba eterna.

Teresina/PI - 21/11/2011



Pássaros de Cuba


Os pássaros de Cuba
São iguais a todos os pássaros do mundo:
Eles comem, bebem e dormem como quaisquer pássaros.
Mas os pássaros de Cuba não podem voar
Ainda que saibam voar
Não podem cantar o que sentem
Ainda que cantem maviosamente!...
Tudo por causa do Grande Irmão
Que teima em querer que eles não pensem por si sós
Não tenham a ousadia de Fernão Capelo
Não sonhem voar como Ícaro para além do horizonte
Ainda que saibam de um amplo horizonte azul
Além da sua ilha
Para sentirem no peito
O sabor gostoso dos ventos da liberdade.

O que os pássaros de Cuba têm em comum
Além do Grande Irmão?
A mesma gaiola dourada
Que lhes serve de prisão.

                              Teresina/ 10/out/2011







domingo, 27 de novembro de 2011

Latim

Você gosta de Latim e Italiano? Abaixo segue o texto de "Primo Corinzi, capitolo 13", com a respectiva tradução em Português.





1.Si linguis hominum loquar et angelorum caritatem autem non habeam factus sum velut æs sonans aut cymbalum tinniens

1.Quand’io parlassi le lingue degli uomini e degli angeli, se non ho carità, divento un rame risonante o uno squillante cembalo.
(Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.)

X

2.et si habuero prophetiam et noverim mysteria omnia et omnem scientiam et habuero omnem fidem ita ut montes transferam caritatem autem non habuero nihil sum
(E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.)

X

3.et si distribuero in cibos pauperum omnes facultates meas et si tradidero corpus meum ut ardeam caritatem autem non habuero nihil mihi prodest
3 E quando distribuissi tutte le mie facoltà per nutrire i poveri, e quando dessi il mio corpo ad essere arso, se non ho carità, ciò niente mi giova.
(E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.)
X
4.caritas patiens est benigna est caritas non æmulatur non agit perperam non inflatur
(O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.)

X
5.non est ambitiosa non quærit quæ sua sunt non inritatur non cogitat malum
(Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;)
X

6.non gaudet super iniquitatem congaudet autem veritati
(Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;)

X

7.omnia suffert omnia credit omnia sperat omnia sustinet
(Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.)

X

8.caritas numquam excidit sive prophetiæ evacuabuntur sive linguæ cessabunt sive scientia destruetur
(O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;)

9.ex parte enim cognoscimus et ex parte prophetamus
(Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;)

X
10.cum autem venerit quod perfectum est evacuabitur quod ex parte est
(Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.)

X

11.cum essem parvulus loquebar ut parvulus sapiebam ut parvulus cogitabam ut parvulus quando factus sum vir evacuavi quæ erant parvuli
(Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.)

X

12.videmus nunc per speculum in enigmate tunc autem facie ad faciem nunc cognosco ex parte tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum
(Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.)


X

13.nunc autem manet fides spes caritas tria hæc major autem his est caritas
(Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.)







sábado, 26 de novembro de 2011

Gênero e sexo

Este é um pequeno ensaio a respeito da confusão comum, presente nos livros didáticos, no tocante à classificação de vários substantivos quanto ao gênero. O que fazer, em sala de aula, para evitar essa confusão quanto ao conceito de gênero e o de sexo quando se lida com as palavras?




Gênero ou sexo, eis a questão




By, Elizamar R. da Costa




         No mundo gramatical, há muito vem se cometendo erro ao confundir as noções de gênero e sexo. Isso acontece quando ensinamos as crianças, adolescentes e adultos que certas palavras são o feminino da palavra x ou y.

         Aprendi na escola e tenho visto muita gente ensinar que o feminino de bode é cabra, o de boi é vaca, o de carneiro é ovelha e outros tantos femininos que abundam nas gramáticas e livros didáticos. A verdade não é bem assim. Cabra, vaca e ovelha não são, nunca foram e jamais serão, respectivamente, o feminino de bode, boi e carneiro.

          Não se pode confundir o conceito de gênero – uma realidade estritamente gramatical – com o de sexo que, de forma alguma, tem relação com o aspecto gramatical. Portanto, o que devemos ensinar é que não existe o feminino das palavras bode, boi e carneiro. Cabra, vaca e ovelha são as fêmeas do bode, do boi e do carneiro, respectivamente. Na verdade, as palavras bode, boi e carneiro pertencem ao gênero masculino, por se poder antepor-lhes um determinante também do gênero masculino, como os artigos, por exemplo. Por se tratarem de palavras que não se flexionam para gerar a forma feminina correspondente, dizemos que essas palavras são masculinas de gênero único. De igual modo, as palavras cabra, vaca e ovelha pertencem ao gênero feminino, uma vez que se pode antepor a elas um determinante feminino, como as variantes femininas dos artigos. Assim, pode-se dizer que essas palavras são femininas de gênero único.

         O mesmo se pode afirmar em relação aos substantivos ditos epicenos. Em vez desse nome esquisito, bastaria apenas informar, por exemplo, que as palavras borboleta, cobra, jacaré, lagarta, que não se flexionam para gerar formas femininas correspondentes, mas que aceitam que se lhes anteponha um determinante masculino ou feminino, se chamem de substantivos de gênero único masculino e substantivo de gênero único feminino.

         A determinação da forma feminina de uma palavra masculina está na dependência direta da flexão dessas palavras, através da permuta da desinência nominalo para –a, por exemplo, menin-o/menin-a. Caso essa flexão ocorra, é preciso ter em mente se a nova forma gerada mantém a mesma significação daquela que a gerou. Não se pode dizer que cavala e banheira, por exemplo, são o feminino de cavalo e banheiro, respectivamente, uma que se tratam de realidades diferentes. Nesse caso, cavalo e banheiro são substantivos de gênero único masculino, enquanto que cavala e banheira são de gênero único feminino.

         No caso dos substantivos ditos sobrecomuns, ainda que exista apenas uma forma para designar os seres do sexo masculino e feminino, a denominação é a mesma, sendo a palavra um substantivo de gênero único masculino, se a ela só se puder antepor um determinante masculino, como por exemplo, as palavras cônjuge e monstro. Serão de gênero único feminino aquelas que igualmente possuam uma única forma para designar os seres do sexo masculino e feminino,  admitindo que se lhes anteponham apenas determinantes femininos, como por exemplo, as palavras vítima e criança.

         Relativamente aos substantivos chamados de comum de dois gêneros, em que também só existe apenas uma forma para designar os seres do sexo masculino e feminino, mas que admitem que se faça a permuta de um determinante masculino para um feminino, mesmo não ocorrendo flexão na palavra, a determinação do seu gênero masculino ou feminino dependerá do gênero de seu determinante. Assim, não se pode dizer, por exemplo, que as palavras colega, estudante, artista e outras são substantivos de gênero masculino ou feminino, mas substantivos de gênero único masculino ou de gênero único fminino.

         Substantivos como o capital/a capital, o grama/a grama, o cabeça/a cabeça, por exemplo, também recebem a denominação, respectivamente, de substantivos de gênero único masculino (o capital, o grama, o cabeça) e substantivos de gênero único feminino (a capital, a grama, a cabeça) por passarem a designar realidades diferentes, com a permutação masculino/feminino de seus determinantes. 

         Nos casos dos substantivos masculinos com desinência zero em que a flexão acontece por acréscimo da desinência feminina –a, também não valem as denominações de gênero único, porque, nesse caso ocorreu uma flexão que deu origem a uma forma feminina correspondente. Assim, pode-se dizer que a palavra professora é a forma feminina da palavra professor.

         Quanto aos substantivos ditos de gênero dúbio ou flutuante, muitas vezes por causa de suas origens, serão masculinos e femininos, uma vez que se aceita dizer, por exemplo, o diabetesa diabetes, o aluvião a aluvião.

         É difícil, mesmo para uma pessoa adulta, fazer a distinção entre o que é gênero e o que é sexo, quanto mais em se tratando de uma criança. Todavia, isso possível, deixando bem claro que uma coisa é a palavra e outra, o ser que representa. Um exemplo fácil de promover essa assimilação, é mostrar que as palavras copo e lápis, por exemplo, não são do sexo masculino e, sim, do gênero masculino. Qual é a fêmea do copo? E a fêmea do lápis?  A fêmea do cachorro é a cachorra, mas a palavra cachorro pertence ao gênero masculino, da mesma que a palavra cachorra pertence ao gênero feminino.
          E como resolver, então, o caso dos substantivos cão e cadela
       Em latim, cão (canis -is) é cão mesmo - o macho -, enquanto que cadela, do latim catella, além de ser a fêmea do cão, seu significado é "pequena cadela". Por não manterem a mesma significação, o substantivo cão seria classificado como substantivo de gênero único masculino e cadela substantivo de gênero único feminino. Se existise a forma cadelo - cão pequeno - da qual cadela seria sua variante, nesse caso haveria uma forma masculina e corresponde à feminina: cadelo/cadela.
          Como se vê, o assunto é de digestão difícil. Mesmo assim é possível ensinar que as palavras podem pertencer aos gêneros masculinos e feminino. O que elas não têm é sexo; sexo tem os seres que elas representam. 









Em Teresina (PI), 26/11/2011, às 3:52 a.m.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Uma fábula fabulosa

       Para quem não sabe, fábula é uma pequena história de conteúdo moralizante. O maior de todos os fabulista foi Esopo que, segundo dizem, era um escravo. Suas histórias fizeram tanto sucesso, que ele, nascido muito antes de Cristo, continua, além de lido, atualíssimo.
       Escritores modernos e contemporâneos escreveram fábulas inspirados nas fábulas de Esópo.Alguns, poder-se-ia dizer, plagiaram-nas.
       No Brasil, nosso grande fabulista foi Monteiro Lobato, autor de "O Sítio do Picapau Amarelo", "As Reinações de Narizinho", entre outros. Monteiro também inspirou-se no famoso fabulista grego.
       Pela primeira vez, eu meto nessa seara, conforme você pode comprovar pelo texto seguinte. Se puder ajudar, depois de ler essa fábula, escreva uma MORAL para ela. Obrigado.



E o sapo não foi à festa...


         A notícia se espalhara tal qual rastilho de pólvora: o Senhor iria dar uma festa para todos os animais.
Grande era a alegria entre a bicharada, porque, depois daquela festa que Deus promovera para as aves – as aves de plumagem branca, diga-se de passagem – quando o Urubu, além de expulso, tivera a cabeça bicada. Também o Sapo passara momentos terríveis, no momento em que o grande pássaro ebúrneo, que o levou, sem saber, escondido em sua viola, precipitou-o contra a terra, sem querer, ao virar a viola e deixá-la com a boca para baixo.
Quando soube da noticia, o sapo muito se alegrou. Finalmente, ele poderia ir a uma festa no céu, sem ser um penetra. A sua boca enorme era um sorriso permanente. Nunca o Sapo sorrira tanto de felicidades. Já tomara todas as providências: uma bela fatiota para ele, novas cordas para sua viola (ele pretendia cantar uma canção, especialmente preparada por ele para homenagear e agradecer ao Senhor), roupas novas para as crianças e um conjunto completo para sua senhora.
Mas o sapo, apesar de todos os preparos, desconfiava de algo errado nessa notícia. Como ele e os demais animais que não sabiam voar poderiam chegar ao céu?
Dona Coruja, sempre sapiente, sentenciou:
– Deus proverá! Deus proverá!
O Sapo, muito religioso, entendeu o recado da Coruja. Não era isso que dizia Abraão ao pequeno Isaque? Pois, no momento certo, um cordeiro não se apresentou para ser imolado em seu lugar?! E repetiu:
– Deus proverá!
Chegou, afinal, o dia do embarque. Uma gigantesca carruagem puxada por oito cavalos de fogo desceu do céu para conduzir os convidados ao seu destino. Para evitar entrada no céu de algum ser vivo não convidado, insetos, por exemplo, foram colocados dois portões, nos quais uma dupla de anjos fazia o check-in dos passageiros. Talvez fosse isso mesmo que ele pensava quando entrou na fila com a família. O Sapo estava tão entusiasmado, que nem percebeu que alguns animais estavam sendo impedidos de embarcar. Primeiro, foi a baleia, depois o pelicano, o hipopótamo...
Chegou a vez dele, de sua senhora Sapa e dos barrigudinhos. A viola estava numa das mãos, nua, porque ele pretendia tocar para animar o pessoal e a viagem. O Sapo sorria alto, abrindo ainda mais sua bocarra. Quando ele ia atravessar o portão, um dos anjos , com sua espada de ouro e prata, reluzindo, colocou-se diante dele e disse-lhe:
– O senhor, não!
O Sapo ficou atônito, quase petrificado com a surpresa.
– E por que não? – quis saber. – Mas a festa não é para todos os animais?
O anjo, paciente, como devem ser todos os seres celestiais, disse:
– Sim, a festa é para todos os animais. Todos os animais de boca pequena, senhor!
O Sapo, que antes rasgava sua boca em enormes sorrisos de felicidade, pretendendo remediar a situação, respondeu ao anjo, juntando bem os lábios, para que a boca se amiudasse:
– Justo!  Justo! Justo!... É de justiça!...
O anjo, compreendendo a malandragem do Sapo, indicou que deixasse a passagem livre. Infelizmente, esse artifício do Sapo não colou.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Relato ou ficcção?

A história seguinte tanto pode ser um relato quanto uma narrativa de ficção. Explico: relato, por o sonho foi verdadeiro; ficção, porque há mais fantasia que veracidade. O defunto era eu mesmo, que deixei de sê-lo logo que acordei.



O dia em que eu morri


         Ainda que possa parecer, eu não sou um autor-defunto, muito menos ainda um defunto-autor. Isso você vai saber logo adiante.
         Eu morri. Verdade! Morri!
         Foi assim como tudo aconteceu.
         De repente, estava eu deitado no meio de uma sala, que não era da minha casa. Sentadas em cadeiras ou em pé ao redor de mim, mulheres (só mulheres) me olhavam com um olhar mais de curiosidade que de consternação pelo meu passamento.
         Eu podia me ver claramente, ali estendido dentro de um caixão aberto, vestindo uma roupa muita branca. Os cabelos bem alinhados, úmidos, como se eu acabasse de tê-los molhado há pouco na pia do banheiro. As mãos, cruzadas sobre o peito, os dedos entrelaçados, ao ver pela minha cara de compungido, podia-se pensar que estivesse rezando, piedosamente:
         – Miserere me, Domini! Miserere me, Domini!
         A entrada e saída de mulheres não paravam. Eram senhoras idosas, de meia-idade, moças, meninas-moças e crianças, que não eram mais de colo. O que não lhes faltava era curiosidade. Mal adentravam e iam logo perguntando:
         – De que foi que ele morreu?
         A essa pergunta ninguém respondia. O vaivém, o entra-e-sai de mulheres continuava. E sempre a mesma pergunta:
         – De que foi que ele morreu?
         Aquela situação começava a me dar nos nervos. Ora bolas! Que nervos? Como pode um morto ficar nervoso? Mas eu estava ficando. Se não me levassem dali o quanto antes para minha última e definitiva morada, certamente eu enlouqueceria.
         Depois de uma pausa na minha exasperação, vi uma senhora, caminhando com alguma dificuldade, entrar e vir postar-se bem perto de minha cabeça. Aliás, nem sei por que a minha cabeça, tão lindamente penteada, havia começado a doer. A senhora olhou para mim com uns olhos que pareciam lacrimejar, pôs uma das mãos na minha cabeça como quem vai fazer um afago e depois, olhando para as mulheres que se juntaram a ela mais perto do caixão, disparou a odiosa pergunta:
         – De que foi que ele morreu?
         Aquilo já era demais! Não sei onde consegui forças para pôr fim àquela tortura. Num só movimento, ergui o tronco, sentei no caixão e gritei:
         – De insuficiência renal!!!!!!!
         Eu sou um caso extraordinário de alguém que ressuscitou sem nunca ter morrido, igual àquele foi, sem nunca ter sido. Morri e ressuscitei, porque estava dormindo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Dois poemas-piada


Cardiopatia


O coração vacila.
Sobe o gráfico:
 Taquicardia...
O peito dói:
(angina pectoris...)
Infarto do miocárdio.
Desfibrilador :
0 choque elétrico.
Medicação urgente
 Urgentíssima...
E o médico em estupor agita-se...
(Medo de perder o paciente?...
Quem sabe, a reputação?)

Enquanto isso meu coração velocista
Alheio aos riscos de sua corrida
Brinca com a agonia do doutor! 



Diabetes


Necrose – diz o laudo médico –
Técnico, frio como navalha na carne.
Amputação – solução médica perfeita
Para salvar uma vida que se esvai.

Primeiro, o pé direito
Depois um braço também.
Mais um pé, e o outro braço...

_ Meu Deus! O meu corpo
Está indo todo para a lata de lixo!