quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Relato ou ficcção?

A história seguinte tanto pode ser um relato quanto uma narrativa de ficção. Explico: relato, por o sonho foi verdadeiro; ficção, porque há mais fantasia que veracidade. O defunto era eu mesmo, que deixei de sê-lo logo que acordei.



O dia em que eu morri


         Ainda que possa parecer, eu não sou um autor-defunto, muito menos ainda um defunto-autor. Isso você vai saber logo adiante.
         Eu morri. Verdade! Morri!
         Foi assim como tudo aconteceu.
         De repente, estava eu deitado no meio de uma sala, que não era da minha casa. Sentadas em cadeiras ou em pé ao redor de mim, mulheres (só mulheres) me olhavam com um olhar mais de curiosidade que de consternação pelo meu passamento.
         Eu podia me ver claramente, ali estendido dentro de um caixão aberto, vestindo uma roupa muita branca. Os cabelos bem alinhados, úmidos, como se eu acabasse de tê-los molhado há pouco na pia do banheiro. As mãos, cruzadas sobre o peito, os dedos entrelaçados, ao ver pela minha cara de compungido, podia-se pensar que estivesse rezando, piedosamente:
         – Miserere me, Domini! Miserere me, Domini!
         A entrada e saída de mulheres não paravam. Eram senhoras idosas, de meia-idade, moças, meninas-moças e crianças, que não eram mais de colo. O que não lhes faltava era curiosidade. Mal adentravam e iam logo perguntando:
         – De que foi que ele morreu?
         A essa pergunta ninguém respondia. O vaivém, o entra-e-sai de mulheres continuava. E sempre a mesma pergunta:
         – De que foi que ele morreu?
         Aquela situação começava a me dar nos nervos. Ora bolas! Que nervos? Como pode um morto ficar nervoso? Mas eu estava ficando. Se não me levassem dali o quanto antes para minha última e definitiva morada, certamente eu enlouqueceria.
         Depois de uma pausa na minha exasperação, vi uma senhora, caminhando com alguma dificuldade, entrar e vir postar-se bem perto de minha cabeça. Aliás, nem sei por que a minha cabeça, tão lindamente penteada, havia começado a doer. A senhora olhou para mim com uns olhos que pareciam lacrimejar, pôs uma das mãos na minha cabeça como quem vai fazer um afago e depois, olhando para as mulheres que se juntaram a ela mais perto do caixão, disparou a odiosa pergunta:
         – De que foi que ele morreu?
         Aquilo já era demais! Não sei onde consegui forças para pôr fim àquela tortura. Num só movimento, ergui o tronco, sentei no caixão e gritei:
         – De insuficiência renal!!!!!!!
         Eu sou um caso extraordinário de alguém que ressuscitou sem nunca ter morrido, igual àquele foi, sem nunca ter sido. Morri e ressuscitei, porque estava dormindo.

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