Uma motorista
excepcional
Por razões mais do que óbvias, eu a
chamarei apenas de Edileia. Aliás, esse nome fui que o inventei. Todavia, no
caso de existir alguém com o nome da minha personalidade (Edileia, leitor, não
é personagem; é personalidade), e com ela se identifique, saiba que isso terá
sido mera coincidência. No caso de o nome ter sido apenas uma coincidência, ou
seja, sem qualquer identificação entre as partes, creio que não haja motivo
para preocupações.
No que diz respeito ao adjetivo, que
aparece no título, o leitor decida pelo seu significado, após conhecer os
eventos nos quais a nossa persona se
envolveu.
Corriam os anos oitenta, últimos
decênios do século e do milênio passados, quando Edileia comprou seu primeiro
carro, um automóvel de quatro portas produzido por uma de nossas
multinacionais. Depois de frequentar uma autoescola, ela conseguiu tirar sua
carta e, justiça seja feita, a moça aprendeu a dirigir, posto que, ao longo de
vários anos, nunca ela se envolveu em acidentes de trânsito, nem como culpada,
nem como vítima. Pessoalmente, não acredito que isso tenha sido um simples
golpe de sorte.
Apesar de toda essa ficha ilibada,
ainda enquanto dirigia seu primeiro automóvel, Edileia deu de fazer ou deixar
de fazer certas coisitas que passaram a desabonar (desculpe o exagero) a imagem
da sólida carreira de motorista de nossa gentil personalidade.
Certa amanhã, após tomar o café,
quando se preparava para ir ao trabalho, Edileia entrou na garagem, sentou
atrás do volante, acomodou sua bolsa sobre o banco do carona, pôs o
indefectível cinto de segurança, a chave no contato e ligou, ou pelo menos
tentou ligar o motor. Como este sequer desse um sinal, ela foi buscar ajuda com
seu cunhado, que morava ali perto. Após explicar-lhe o acontecido, sem examinar
o painel, ele acionou o motor de partida. O motor fez um barulho estranho, e o
moço viu que havia algo errado com ele. Examinou o painel e notou que a luz
indicadora de óleo não se acendera. Então o cunhado fez-lhe a pergunta
consultiva que qualquer um faria naquela situação:
– Edileia, quando você trocou o óleo
do motor?
A moça, sem nenhum constrangimento,
mas apenas fazendo uma cara típica de quem ignora o que lhe perguntam,
respondeu-lhe com outra pergunta:
– Óleo do motor?
– Sim, Edileia! Depois das revisões
da garantia, quantas vezes você fez a troca de óleo?
E ela:
– Eu? Nenhuma. Eu não sabia que
precisava disso!...
Ouviu-se um estalo na frente do
carro. O cunhado de Edileia foi até lá, abriu o capô, puxou a vareta de óleo e
conferiu: nem uma gota.
– Edileia, você não viu a luz do
óleo acessa no painel? – indagou o cunhado.
– Luz do óleo?
– Sim. Uma que fica bem aqui. –
disse, apontando com o dedo, no painel. – Uma luz vermelha.
– Ah!... – fez ela – eu vi quando ela
acendeu, mas achei tão bonitinha, que fiquei triste quando desapareceu!
Você, leitor amigo, se conhece o
mínimo do mínimo sobre automóveis, sabe o que aconteceu ao motor do carro de
Edileia: trancou e bateu por falta de lubrificação.
Edileia vendeu o carro ainda novo
como sucata. O cunhado dissera que não valia a pena ela gastar para refazer o
motor; melhor seria vendê-lo e comprar outro novo.
Tempos depois, já de carro novo,
Edileia me contou, morrendo de rir, o que lhe acontecera. Eu falava de
consertos que mandara fazer no meu velho Corcel II. Disse-lhe que mandara
trocar uma das mesas dianteiras, as pastilhas, as lonas e os burrinhos de
freio. Então Edileia, admirada, me perguntou:
– Mesa, pastilha...? Que história é
essa de carro ter mesa, pastilhas e burrinhos?
Claro que Edileia era uma perfeita
ignorante em matéria de mecânica automotiva. Isso e tudo mais eram provas tanto
de sua incipiência, por apenas saber guiar um carro, como de sua insipiência, por
ignorar totalmente os componentes de um veículo.
Nessa mesma ocasião, Edileia me
contou mais uma de suas mancadas. Após meses usando o novo carro, ela nunca se
dera ao trabalho de consultar o manual para conhecer o funcionamento de todos
os componentes a serem acionados por quem se senta à direção de um veículo. Frear,
acelerar, acender as luzes, puxar o freio de mão, a seta direcional, tudo isso
ela soube fazer, porque isso já faz parte de quem dirige todos os dias.
Contou-me ela que, certa tarde-noite, ao
deixar o trabalho, tão logo ela se afastou dirigindo seu carro, veio uma chuva
esperada, mas não tão de repente. O para-brisa logo cobriu-se de água, e ela
começou a procurar como acionar o limpador e não sabia onde ligá-lo. Enquanto
isso, ela e o carro deslizavam pela rua. Então Edileia disse-me, sem nenhum
pudor, que abriu o vidro da porta, pôs a cabeça para fora, molhando-se ela e o
carro, foi assim até chegar a sua casa, porque, olhando pelo para-brisa, ela
não conseguia simplesmente ver nada.
Então, meu caro leitor, a Edileia não é
mesmo um caso de rir-se às bandeiras? Não tenha pudor em rir, porque Edileia,
lembrando-se disso, será a primeira a cair na risada com você. Quanto ao
“excepcional”, lá no título, opte pelo significado que quiser. Eu nada tenho a
ver com isso. A Edileia tem, mas duvido que ela se importe com a sua escolha.