sábado, 19 de maio de 2012

O bom-humor ajuda viver

Edileia fazia bobagens, mas nunca perdia o bom-humor. Prova disso era que ela ria das próprias trapalhadas. É prefer´vel rir de si mesmo a que os outros o façam.


Uma motorista excepcional


            Por razões mais do que óbvias, eu a chamarei apenas de Edileia. Aliás, esse nome fui que o inventei. Todavia, no caso de existir alguém com o nome da minha personalidade (Edileia, leitor, não é personagem; é personalidade), e com ela se identifique, saiba que isso terá sido mera coincidência. No caso de o nome ter sido apenas uma coincidência, ou seja, sem qualquer identificação entre as partes, creio que não haja motivo para preocupações.
            No que diz respeito ao adjetivo, que aparece no título, o leitor decida pelo seu significado, após conhecer os eventos nos quais a nossa persona se envolveu.
            Corriam os anos oitenta, últimos decênios do século e do milênio passados, quando Edileia comprou seu primeiro carro, um automóvel de quatro portas produzido por uma de nossas multinacionais. Depois de frequentar uma autoescola, ela conseguiu tirar sua carta e, justiça seja feita, a moça aprendeu a dirigir, posto que, ao longo de vários anos, nunca ela se envolveu em acidentes de trânsito, nem como culpada, nem como vítima. Pessoalmente, não acredito que isso tenha sido um simples golpe de sorte.
            Apesar de toda essa ficha ilibada, ainda enquanto dirigia seu primeiro automóvel, Edileia deu de fazer ou deixar de fazer certas coisitas que passaram a desabonar (desculpe o exagero) a imagem da sólida carreira de motorista de nossa gentil personalidade.
            Certa amanhã, após tomar o café, quando se preparava para ir ao trabalho, Edileia entrou na garagem, sentou atrás do volante, acomodou sua bolsa sobre o banco do carona, pôs o indefectível cinto de segurança, a chave no contato e ligou, ou pelo menos tentou ligar o motor. Como este sequer desse um sinal, ela foi buscar ajuda com seu cunhado, que morava ali perto. Após explicar-lhe o acontecido, sem examinar o painel, ele acionou o motor de partida. O motor fez um barulho estranho, e o moço viu que havia algo errado com ele. Examinou o painel e notou que a luz indicadora de óleo não se acendera. Então o cunhado fez-lhe a pergunta consultiva que qualquer um faria naquela situação:
            – Edileia, quando você trocou o óleo do motor?
            A moça, sem nenhum constrangimento, mas apenas fazendo uma cara típica de quem ignora o que lhe perguntam, respondeu-lhe com outra pergunta:
            – Óleo do motor?
            – Sim, Edileia! Depois das revisões da garantia, quantas vezes você fez a troca de óleo?
            E ela:
            – Eu? Nenhuma. Eu não sabia que precisava disso!...
            Ouviu-se um estalo na frente do carro. O cunhado de Edileia foi até lá, abriu o capô, puxou a vareta de óleo e conferiu: nem uma gota.
            – Edileia, você não viu a luz do óleo acessa no painel? – indagou o cunhado.
            – Luz do óleo?
            – Sim. Uma que fica bem aqui. – disse, apontando com o dedo, no painel. – Uma luz vermelha.
        – Ah!... – fez ela – eu vi quando ela acendeu, mas achei tão bonitinha, que fiquei triste quando desapareceu!
            Você, leitor amigo, se conhece o mínimo do mínimo sobre automóveis, sabe o que aconteceu ao motor do carro de Edileia: trancou e bateu por falta de lubrificação.
            Edileia vendeu o carro ainda novo como sucata. O cunhado dissera que não valia a pena ela gastar para refazer o motor; melhor seria vendê-lo e comprar outro novo.
            Tempos depois, já de carro novo, Edileia me contou, morrendo de rir, o que lhe acontecera. Eu falava de consertos que mandara fazer no meu velho Corcel II. Disse-lhe que mandara trocar uma das mesas dianteiras, as pastilhas, as lonas e os burrinhos de freio. Então Edileia, admirada, me perguntou:
            – Mesa, pastilha...? Que história é essa de carro ter mesa, pastilhas e burrinhos?
            Claro que Edileia era uma perfeita ignorante em matéria de mecânica automotiva. Isso e tudo mais eram provas tanto de sua incipiência, por apenas saber guiar um carro, como de sua insipiência, por ignorar totalmente os componentes de um veículo.
            Nessa mesma ocasião, Edileia me contou mais uma de suas mancadas. Após meses usando o novo carro, ela nunca se dera ao trabalho de consultar o manual para conhecer o funcionamento de todos os componentes a serem acionados por quem se senta à direção de um veículo. Frear, acelerar, acender as luzes, puxar o freio de mão, a seta direcional, tudo isso ela soube fazer, porque isso já faz parte de quem dirige todos os dias.
Contou-me ela que, certa tarde-noite, ao deixar o trabalho, tão logo ela se afastou dirigindo seu carro, veio uma chuva esperada, mas não tão de repente. O para-brisa logo cobriu-se de água, e ela começou a procurar como acionar o limpador e não sabia onde ligá-lo. Enquanto isso, ela e o carro deslizavam pela rua. Então Edileia disse-me, sem nenhum pudor, que abriu o vidro da porta, pôs a cabeça para fora, molhando-se ela e o carro, foi assim até chegar a sua casa, porque, olhando pelo para-brisa, ela não conseguia simplesmente ver nada.
Então, meu caro leitor, a Edileia não é mesmo um caso de rir-se às bandeiras? Não tenha pudor em rir, porque Edileia, lembrando-se disso, será a primeira a cair na risada com você. Quanto ao “excepcional”, lá no título, opte pelo significado que quiser. Eu nada tenho a ver com isso. A Edileia tem, mas duvido que ela se importe com a sua escolha.