sábado, 31 de março de 2012

Vinhos: prazer ou excibicionismo?

Você gosta de tomar vinho? Eu gosto. Tomo o suave ou o seco. Os tintos contêm flavanóides, uma enzima que ajuda a reduzir o colesterol ruim. Suave ou seco, tanto faz. Tome pelo prazer de sentir o aroma e o sabor de um bom vinho; nunca para exibir "status quo".


Vinho: tinto fino suave (doce) ou (suave) seco?


            Não sou expert (perito) em matéria de vinhos. Admiro, no entanto, quem domina o assunto.
Adoro degustar um bom vinho, sentindo seu o aroma, ou como preferem os enólogos, seu bouquet. São uma delícia o Cabernet Sauvignon e o Merlot. Prefiro os tintos suaves doces (ainda que nem tanto, por causa do tipo de uva) aos suaves secos. Se alguém, entretanto, tem sua predileção pelos últimos e não usa disso para menoscabar os que preferem àqueles, acho isso saudável.
Outro dia assisti na tv a uma senhora, com as ares de refinada, ensinando etiqueta à mesa. Em dado momento, quando ela começou a discorrer sobre como servir o vinho aos convidados, além de servi-lo em taças apropriadas, a senhora alfinetou quem serve vinho tinto suave doce, por que, de acordo com suas palavras, isso não é chique; é cafonice.
Não gostei, porque não vejo nada de cafonice nisso. Acho apenas uma questão de gosto e de gostar. Tomo vinho pelo prazer que sinto e pelos benefícios que ele pode trazer para a minha saúde. Não tomo essa bebida para exibicionismo social.
Como pode alguém que se diz amante de vinho seco e tomá-lo tentando livrar-se de seu sabor, comendo pedacinhos de pão dormido, ou sorvendo golos de água da taça posta ao lado?  Em minha opinião, quem assim procede, tomo-o, não pelo prazer da bebida em si, mas para mostrar refinamento.
Como disse anteriormente, não sou perito em vinhos. Todavia, aprendi uma coisa muito importante quanto a eles: tomá-los sempre bem gelados, sem jamais adicionar água ou gelo. A água, além de prejudicar o sabor, deixa o indivíduo naquele estado, ao qual o vulgo dá o nome de “aguado”. Adicionar água ou gelo ao vinho é como adicionar açúcar ao chimarrão. Faça isso com a cuia de um gaúcho!...
O vinho com água é a via direta para uma terrível ressaca.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Bizarrias e estultices

Ao leigo se perdoam coisas como você verá no texto seguinte; aos sapientes, não. Se falam ou escrevem assim, ou é por ignorância, ou por negligência.


Bizarrices

       Constantemente, assiste-se na tv a pessoas do meio político confundirem alho com bugalho. Pessoalmente, já ouvi algumas dessas figuras afirmarem, em seus discursos ou em entrevistas, que a obra que está sendo entregue “veio de encontro ao interesse de nossa população”. Sendo assim, melhoria seria não a ter construído.
             Não bastasse essa asneira, temos de aguentar o pessoal de telemarketing ou do pessoal do check-in nos aeroportos dizerem aos ouvidos coisas como:
              a) O senhor vai estar pagando este valor naquele guichê e depois retornando aqui.;
       b) O senhor vai estar recebendo em sua residência as informações que nós vamos estar enviando semanalmente.
          Quando cessarão as ações de “pagar”, retornar”, “receber” e “enviar”, respectivamente? Nunca. Alguém, certamente, há de se cansar, se acostumar a ver repetir-se, indefinidamente, essas ações, isso se ele ou ela tiver paciência.
               Não bastasse essa praga exacerbada do gerundismo, ouve-se ou lê-se frases ou construções como estas, nas quais a palavra “enquanto” – conjunção subordinativa adverbial concomitante, visto que ela indica ações que acontecem ao mesmo tempo – vem sendo, de modo inadequado, não somente por leigos em matéria de conhecimentos gramaticais, como também por aquelas que posam como cultas nos saberes de nossa língua.
            Dizem elas:
            a) Eu, enquanto cidadão, devo zelar pelo respeito à dignidade da pessoa humana.;  
            b) Nós, enquanto estudantes, devemos lutar pelo direito a uma educação de qualidade.
         Doem-me os ouvidos, não tanto quando ouço o vulgo dizendo frases como essas, mas, principalmente, quando quem as pronuncia são pessoas que deveriam zelar pelo uso correto da linguagem padrão.
            Nesse caso tão simples, bastaria, em vez de “enquanto”, usar “como”, significando “na condição de”.
         Também quero me reportar a essa outra bizarria: a confusão que fazem alguns incautos com uso da conjunção “pois”, coordenativa explicativa (também ainda conclusiva) como se ela fosse subordinativa adverbial causal, equivalente a “por que”, como se pode ver em exemplos do tipo:
            a) Pedro não foi à festa de formatura, pois estava doente.;
            b) Os dois irmãos foram despedidos, pois chegavam atrasados ao trabalho.
            A conjunção “pois”, nos períodos supra, não estabelece relação de causa/consequência entre o que se diz nas duas orações que de se compõe o período. Tente inverter a ordem das orações e, se disso resultar em algo significativo, então eles têm razão; eu não.
            “Pois estava doente, Pedro não foi à festa de formatura.”  Tem sido isso para você?
            Desafio:
            No período seguinte, explique por que a conjunção “porque” tem valor explicativo, e não causal.

            O gato está morto, porque já não respira.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Deivid: in memoriam

"Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestasse nele as obras de Deus." João 9: 2, 3.


Canto a Deivid

As portas do céu se abrindo
E por um facho de luz de intensa luminosidade
Descem anjinhos sorrindo
Os dedinhos tangendo as cordas de suas harpas.
E tocam-nas com energia
Enquanto, em coro, cantam, em uníssono:

“Bem-vindo, Deivid, à tua morada,
Porque à Mansão dos Eleitos sempre pertenceste.
Em terrena vida, cumpriste a missão
A ti confiada de levar e receber o Amor
E de promover uma união ainda maior entre os teus.
E como foi maravilhoso o amor que teus pais
E teus avós te dedicaram!
Toda aquela dedicação não foi movida
Somente pela piedade:
Fora só por amor... amor puro, verdadeiro.

Entra, Deivid, a casa é tua.
O Pai te espera para te entregar o galardão da Vitória.”

quarta-feira, 28 de março de 2012

O poder da Natureza


Você acredita em milagres? Não? Pois olhe que eles acontecem, todos os dias, nos lugares e nos momentos mais diferentes. Senão vejamos o milagre que uma sementinha pôde realizar.
 

Milagres

Seulement une trés petite fleur...

         Uma semente. Apenas uma minúscula semente, tão pequenina quanto um grão de mostarda, que uma enxurrada viera depositá-la, na terra árida, ao pé do poste de luz. Depois, uma plantinha frágil, com duas folhinhas apenas, nascera em meio a outros arbustos. Cresceria imperceptível, anônima, não fosse uma única flor que ela ostentava como uma menininha com um laço colorido na cabeça.
É uma flor muito simples: cinco pétalas, separadas entre si, como se fosse um pequeno catavento, em tom róseo, na parte superior, tornando-se cada vez mais intenso, à medida que avança para o centro, onde um pequenino círculo esbranquiçado, com um furinho, parece sugerir que ali havia algo outrora. Na parte inferior, o branco dominando uma textura macia, sedosa, tal aquela, na parte interna de um terno ou de um casaco de luxo. Seu cheiro não é agradável; todavia, a sua beleza compensa esse seu único aspecto negativo.
            A plantinha crescera e mais e mais flores iguais àquela surgiram nas extremidades de cada um de seus ramos. Seu formato arredondado, compacto, inteiramente florido, parecia uma noiva com a cabeça coberto por um véu alegremente colorido. E aquele poste de concreto, rijo, ereto, apontando para o céu feito um obelisco, agora tinha, ao pé de si, a alegria colorida de tantas flores e dos insetos em festa.
            Os transeuntes olhavam para ela cobiçosos. À sorrelfa, alguns deles levaram pedaços de seus ramos, na tentativa de formarem, a partir deles, uma planta tão bonita quanto aquela. Tudo em vão. Como uma vingança por terem lhe causado o sofrimento de arrancarem seus galhos, sem lhe consultar e ainda, impiedosamente, nenhum deles teve a planta que tanto desejavam.
            Dias atrás, eu vi diversas vagens pequeninas. Algumas em formação, outras formadas, mas ainda não amadurecidas, e outras ainda, em número menor, maduras, prontas para serem colhidas ou deixadas para que se abrissem e deixassem que a própria planta fizesse a semeadura, segundo os ditames da mãe-natureza.
            Colhi dezenas e dezenas dessas pequenas vagens. Extraí delas muitíssimas sementes, todas nigérrimas como o ébano, semeei uma porção delas e guardei outro tanto para que, em caso de morte da minha belíssima boa-noite (Lochnera rosea), outra possa sucedê-la.
            Olhando para aquelas inúmeras sementinhas, lembrei-me de que todas vieram de apenas uma semente tão minúscula quanto elas. Milagre da vida. Concentrado, na palma de minha mão, o poder da Natureza. O milagre da multiplicação da vida, pois cada uma delas, germinando, produzirá milhares e milhares de outras iguais a elas. Imagino quanta beleza as minhas sementes poderão gerar com os milhares de flores róseas cobrindo de alegria os canteiros dos jardins.

sábado, 24 de março de 2012

Desespero

As personagens deste conto (principal e coadjuvantes) obviamente não são reais, porque personagem não são pessoais reais de carne e ossos. Os fatos narrados não são verídicos, mas estão assentados na realidade de um fato ocorrido nos anos '70.

Construção

“E se acabou no chão feito um pacote tímido”
(Chico Buarque)

            Damião havia meses estava desempregado. Desde que fora despedido do último emprego, batera em todos os canteiros de obra da cidade e sempre a mesma resposta: não. Muitas vezes nem precisava perguntar. Numa placa grande, com letras vermelhas, presa ao tapume, a informação dura e secamente: não há vagas.
            O último salário, sendo gasto com o máximo de parcimônia, consumia-se com as mais absolutas das necessidades. Nada de luxos. Nem aqueles ossos, só com vestígios de que ali houvera carne antes, que os magarefes vendem para os pobres, para que eles se imaginem comendo o produto, apenas com o gosto de um caldo fino. Minguava a cada dia, confirmando aquilo que a sabedoria popular diz: de onde se tira e não bota, acaba.
Logo, logo seu nome estaria assentado nos cadernos de fiados de um pequeno comerciante. Tomara Deus que não! E ele se benzia várias vezes só de pensar nessa possibilidade. Mas ia já ficando cansado de tanto andar pelas ruas, indo de um canteiro a outro, e de recebe tantos nãos. A bicicleta Monark, seu desejado e realizado sonho consumo, juntara-se para reforçar as últimas migalhas de seu salário. Chorara muito, em silêncio, quando o homem entregou-lhe o dinheiro e a levara de si. Sentira-se, enquanto olhava para aquele punhado de notas miúdas, como Judas. Por pouco não as jogara longe, porque elas lhe queimavam as mãos. A sua Monark havia sido seu único meio de transporte particular. Fora seu automóvel de passeio, seu ônibus e sua ambulância. Compraria outra.
– Com fé em Deus, compro outra, quando esta situação melhorar!
As coisas, porém, continuaram indo de mal a pior. A Indústria da Construção Civil nunca vivera momentos de tantas dificuldades. Os investimentos sumiam. Prédios inacabados por falta de compradores. Cada qual defendia seu patrimônio como podia do dragão da inflação. Oitenta por cento ao mês. Isso pelos índices oficiais do governo. Certamente era mais que isso, porque os governos tendem a esconder a inflação real, para fazer acreditar que o país ainda tem jeito, mesmo decretando moratória com a célebre fórmula: devo, não nego; pago, quando puder.
O salário de Damião finalmente acabou. Seu Chico, o dono da mercearia, não queria mais ninguém no seu caderno de fiados. Os clientes reclamavam dos preços na hora de pagar. O preço cobrado era o preço do dia do pagamento. Aquela fórmula de correção monetária mal dava para continuar no ramo. Quem não pagasse, perderia o crédito e o fornecimento para o mês seguinte. A adimplência era a garantia de permanência do nome em seu caderno.
Damião estava no caderno de seu Chico. Teve que se humilhar. Não tinha renda fixa. Como pagaria? Trabalharia fazendo bicos, até conseguir ser fichado novamente. Seu Chico aceitou. Seu crédito rotativo era certamente o mais nanico de todos. Pelo menos não passariam fome, de todo. Feijão, farinha, óleo, um pouco de arroz, macarrão e uma sardinha. Dava para pagar. O operário conseguia quitar seu débito e logo se endividava para o mês seguinte. Até que um dia...
Até que um dia a conta não fechou. Damião não pôde pagar a conta da mercearia. Precisava de comida, mas seu Chico foi taxativo:
– Sem pagamento, sem comida.
Em casa as crianças choravam com fome, pedindo o que comer. Ele mesmo e a mulher mal comiam para que os meninos tivessem um pouco mais que eles. Eram adultos. Podiam suportar a dor. As crianças são filhotes de passarinhos nos ninhos, sempre de bicos abertos, piando, pedindo comida, sem se importarem com os esforços da mãe para conseguir o alimento.
No mês seguinte, Damião viu a casa ficar às escuras. A Companhia de Eletricidade cortara-lhe o fornecimento. Dez talões atrasados e o homem alicate galgou o poste com a habilidade de um símio. As crianças reclamavam do escuro. Elas agora não tinham mais a televisão. A mulher perdera a sua máquina de fantasias. Adeus às novelas. Talvez pudesse assistir a elas na casa da vizinha. Mas certamente a vizinha não iria tolerar a presença dela na sua sala todas as noites. Não iria. Nascera e se criara sem televisão! Aguentaria. O que não dava para aguentar era ir dormir cedo para esquecer o vazio no estômago. Aquele arroz com feijão não lhe dava sustância. Aquilo não matava a fome. Era só um meio de enganá-la.
Se a coisa estava difícil, ela degringolou de vez quando a mulher de Damião abriu a torneira e não saiu dela uma gota de água. Não havia faltado água, foi o que ela constatou quando deparou os homens da Companhia de Águas e Esgotos cortando seu fornecimento. Também os talões se amontoavam por falta de pagamento. A mulher de Damião era mais uma de tantas Amélias que, agora, não achava nada bonito não ter o que comer nem beber. Sua paciência estava no limite. Ficar sem comer, sem eletricidade era difícil, mas sem água a coisa ficaria pior.
Damião soube que uma firma estava contratando trabalhadores para construir um condomínio no outro lado da cidade. Ele madrugou a pé para conseguir uma vaga. A fila já estava enorme. Torcia para conseguir uma das vagas. Ela seria para ele como um único bote salva-vidas no meio do oceano. De repente, quando estava já próximo à entrada do portão, a fila começou a se desfazer e da frente veio como uma onda a informação de o quadro acabara ser completado. Damião não desistiu. Falou com o mestre de obras encarregado. Apesar de seus apelos, o homem, abanando a cabeça, disse-lhe:
– Sinto muito, mas todas as vagas foram ocupadas.
Damião saiu dali desesperado. Sem emprego, adeus comida, água, luz, diversão. Sentia o mundo afundando a seus pés. As crianças estavam magras. A mulher e ele ficando de olhos fundos, esqueléticos, cheirando mal, as roupas em péssimo estado. Seus pés doíam no calçamento rude. O chinelo de tiras estava em frangalhos. A cabeça doía-lhe, latejava. Os prédios à sua volta começavam girar. O sol ardia mais do que nunca. As buzinas dos carros eram ecos perdidos, longínquos. Os transeuntes como ele eram fantasmas que o atormentavam.
Damião parou no meio da rua. Seu olhar estava perdido. Por mais que buscasse uma saída, tudo se fechava ao seu redor. Olhou para cima. Uma torre de televisão no outro lado da rua. A torre de televisão poderia ser a sua salvação. O portão estava aberto. A vigilância, desatenta, nem percebeu sua entrada, ainda que ele não tivesse feito qualquer esforço para ocultar-se. O operário subiu rapidamente até o ponto mais alto a que pôde chegar. Estava a mais de quarenta metros do chão. Lá de cima começou a gritar.
O vigilante chamou o Corpo de Bombeiros. Um homem ameaçava se atirar da torre de TV. O chefe da guarnição aproximou-se o máximo que pôde para conversar com Damião. Ele gritou que se atiraria se o bombeiro de se aproximasse mais.  O oficial pedia-lhe calma. Queria saber por que ele queria fazer aquilo. O operário se explicava, mas não dizia coisa com coisa. Era preciso ter paciência nesses casos. Aquele homem estava transtornado. O bombeiro-chefe queria instalada uma rede debaixo da torre para o caso de moço se atirar dali. Faria de tudo para salvar aquela vida.
Mas o Capitão-bombeiro não pôde realizar o que se prometera. Naquela hora, um grupo de adolescentes, alunos de uma escola frequentada pelos filhos das famílias mais ilustres e tradicionais da cidade, chegara ali, atraído pelo telejornal transmitindo, ao vivo, aquele homem em seu momento de desespero. Eram todos filhinhos de pai, bem nutridos, vestidos, do Colégio dos Padres. Desde criancinhas estudavam ali, orientados pelos franciscanos a se comportarem como verdadeiros cristãos. Afinal foram batizados e crismados com os santos óleos.
Quando o bombeiro tentou novamente puxar conversa com Damião, o moço ameaçou se jogar. Muitas vezes esteve na iminência de consumar o ato. O oficial pedia-lhe calma. Então, aqueles filhinhos de papai começaram a gritar:
– Pula, covarde! Pula, covarde!
Damião, mesmo no fundo de sua loucura, tinha sua dignidade. Era um homem de honra. Ele, que lutara tanto para não viver aquele momento, não poderia ser chamado assim de covarde. Ele ameaçou jogar-se e turma, lá embaixo, como se aquilo não passasse de uma brincadeira, gritava, em coro:
– Pula! Pula! Pula!...
E Damião pulou. O abismo o engoliu num único sorvo. Seu corpo desajeitado, as pernas e os braços abertos, um grito lancinante, talvez de arrependimento, feriu a atmosfera ao redor. O calçadão recebeu seu corpo, transformando-o numa massa amorfa, com sangue espirrado ao seu redor, como um prato com a comida ao centro e o molho vermelho contrastando com a sua brancura.
Damião quedou ali para sempre. A turba se desfazia e desaparecia paulatinamente pelas esquinas. Os filhinhos e filhinhas comedores de hóstia fugiam do sangue daquele que eles acabaram de apedrejar. Teria sido aquilo o que aprenderam nas aulas de catecismo? Aquilo fora um belo exemplo de cristianismo e solidariedade.
Os homens do IML fizeram seu trabalho. As luzes dos holofotes, os flashes das máquinas fotográficas, as mãos habilidosas dos jornalistas anotando a futura matéria em seus arabescos estenográficos e a multidão de curiosos que não arredou pé dali até o carro-tumba retirar o corpo do falecido. Nessa noite, as rotativas trabalhariam a pleno vapor. Na manhã seguinte, as bancas venderiam os jornais, os assinantes receberiam em casa seus exemplares. Damião era notícia. Adquirira notoriedade. Pelos menos por um dia. A televisão faturara alguns pontinhos de IBOP. Seria notícia repetida até o telespectador mudar de canal.
O valor de um jornal depende do calor de suas notícias. Com as cinzas, Damião voltaria ao anonimato de onde nunca deveria ter saído.

terça-feira, 20 de março de 2012

Crime e Castigo

Um letrista de certo funk escreveu que "um tapinha não dói". Se não dói, por que até o governo se mete na vida privada do cidão, através de leis que não vão além do papel? O pai ou a mãe não pode dar uma palmadinha no filhote "rebelde" porque o governo está agindo para resolver a violência nossa de cada dia. Enquanto Ele se preocupa como devem os pais criarem os filhos, a violência corre solta justamente porque falta daquela palmadinha educadora. Quanta hiprocrisia, hein?


Assim falou Zarastruta


            Naquela tarde de um dia da semana, do mês e do ano dos quais não consigo lembrar, adentrei à nossa casa, desconfiado, porque mamãe estava com visita.
            Explico o desconfiado. Naquele tempo, quando o pai ou a mãe estava com visita, criança, digo melhor, menino, em sentido geral, era impedido de ficar ouvindo a “conversa de adultos”. Por isso, se não houvesse outro jeito de evitar a passagem por entre a visita ou visitas, passava-se rapidamente, sob o olhar severo e ameaçador dos pais, até o sujeito sumir na porta para o quintal ou em outro aposento qualquer, desde que longe da sala de visitas. Dizia-se que era para a criança não se intrometer em assunto de adultos. Menino era “bicho” arteiro e podia sair comentando sobre coisas que não devia. Portanto, era terminantemente proibido criança estar na sala de visitas e principalmente dar palpite nessa conversa entre pessoas adultas.
            Eu sabia disso, todavia não sei por que desobedeci, de uma tacada só, a essas duas regras elementares. Minha mãe conversava com a visita, e eu, apesar de não estar perturbando a prosa (pelo menos no meu ponto de vista), não pude deixar de perceber o olhar meio enviesado de minha mãe na minha direção e o jeito pouco à vontade da senhora que privava com ela daquele momento ímpar, mal conseguindo disfarçar seu mal-estar, numa censura direta à minha presença e, por extensão, à minha mãe.
            Quando cheguei a casa, a prosa entre as duas já rolava há um bom tempo e se prolongou por mais de meia hora, quando, finalmente, a visita anunciou sua intenção de se ir para casa, antes que eu quebrasse a segunda regra: a de não se meter na conversa de adultos. Mamãe relatava um caso recente na cidade, muito comentado nas rodas de conversas nas boas casas de família ou ao pé do balcão dos botequins. A certa altura de seu relato, que eu acompanhava, atentamente, de longe, sem olhar para elas. Nesse momento, vendo que a história não era “bem assim”, eu a interrompi, inesperadamente, dizendo:
            – Mamãe, não foi assim, não!
            Aquilo teve o impacto de uma bofetada na cara dela. A visita me encarou, incrédula, sorriu um sorriso amarelo para minha mãe e esta, certamente contendo-se, disse-me, muito calmamente:
            – Não foi assim, não?! Então conte para nós como foi, meu filho!
            Eu me senti nas alturas com aquele “conte para nós” e me pus a relatar a versão que conhecia do fato, todo ensoberbado, tal a rã que tentava imitar o tamanho do boi. Qual menino, na minha idade, tinha aquele privilégio de poder estar entre as visitas e ainda por cima poder palpitar na conversa! Era demais para mim! O que eu não sabia era o que estava por trás daquele pedido tão gentil: “conte para nós, meu filho!”
            A visita anunciou que era hora de partir. Minha mãe, assim como faziam e ainda fazem a maioria das anfitriãs, disse:
            – Já vai?! Tá cedo!...
            Na verdade, a visita já percebera, por certo sinais, o incômodo do anfitrião ou anfitriã e cuida de dar o fora antes que alguém ponha uma vassoura atrás da porta.
            A senhora se foi. Eu estava encantado com a minha atuação. Mamãe parecia contar os minutos até ver a visita ficar bem distante de nossa casa. Ela deixou a porta após certo tempo. Pensei que ela havia gostado muito da prosa daquela visita. Depois que ela saiu de lá, passou por mim diretamente para o quarto mais próximo. Eu continuei sentado à mesa. De repente, ela apareceu na porta e me chamou calmamente, tendo as mãos atrás das costas. Fui todo solícito e, quando me postei diante dela, agarrou-me o braço, num bote certeiro e, mostrando uma corda dobrada em três pernas, disse-me:
            – Isso aqui é para você aprender a nunca mais se meter na minha conversa com as visitas.
            Nem preciso dizer que o couro cantou alto e conversado. Nessa tarde, eu fui aos píncaros da glória e ao fundo do poço. Ah, como a fama é efêmera! Isso eu aprendi cedo. Mais tarde li, parece-me a moral de uma fábula que dizia mais ou menos assim: cuidado ao subir, porque a queda, para quem foi tão alto, dói mais do que para aquele que mal conseguiu tirar os pés do chão.
            Se você está pensando no ódio que tive de minha mãe por causa disso, esqueça. Também a gente aprende com a dor. Eu conhecia as regras e desobedeci a elas. Justo, portanto, foi o meu castigo. Aprendi a lição de nunca me meter em assuntos que não me diziam respeito, ou para o qual não fui convidado. Quando a conversa ao pé do ouvido não surte efeito e todos os argumentos se esgotaram, você pode, por direito, discordar de mim, mas uns tabefes aplicados, na hora e na medida certas, são um santo remédio para evitar que o pau que nasceu torto, ou tendeu a ficar torto, morro torto. Melhor são os pais consertarem o pau que ameaça entortar-se que a polícia, porque as batidas dela doem muito mais.Ai, como doem!
Lembre-se do dito popular: pela falta de um grito pode-se perder uma boiada! Quantos bois estão se perdendo pela falta dele!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Alegria, alegria, alegria

Ainda que ninguém queira ser um urubu, os bichinhos são felizes. Veja como eles brincam com as correntes de ar. Eles apenas aproveitam o dia.


 O voo negro dos urubus

Urubus dançam no céu
em alegre roda-viva
uma valsa interminável
ou uma quadrilha
onde ninguém é de ninguém.
O voo negro dos urubus é alegre
sem tragédias:
ninguém fica para titia,
nenhum desconhecido
que nada tem a ver com dança
aparece num repente,
ninguém foi para os Estados Unidos
e ninguém pensa em suicidar-se.
Tudo o que eles querem é divertir-se
aproveitar a vida em toda sua plenitude.
Fora as preocupações!
Fora as neuroses do quotidiano urbano!
Fora a concorrência por um lugar ao sol!...
Melhor mesmo é cair na dança como os uubus!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Salário e qualidade do ensino

Especilistas dizem que melhoria salarial dos professores não resolve o problema da qualidade da educação. É verdade. Mas se continuarem pagando salários aviltantes, será que essa qualidade não tenderá a ficar pior?


Salário e qualidade de ensino

Sempre que se fala em aumentar salário para professor, notadamente quando a classe entra em greve para reivindicar essa melhoria, aparece a figura de um especialista em educação para dizer o óbvio: aumento de salário não resolve o problema da qualidade da educação.
        Claro que outros fatores em combinação com aumento salarial é podem resolver a questão da qualidade do ensino. Citam-se casos de Estados ou cidades onde professores, com salários defasados, apresentarem bons índices de aprovação. Resta saber quanta pressão diretores de escolas receberam de seus superiores para pressionar professores a promoverem alunos para séries subsequentes a fim de que as estatísticas das Secretarias de Educação de estados e municípios apareçam na mídia e façam a propaganda de resultados excelentes que não passam de pura mistificação.
Se não vejamos o que é fato e o que é engodo. Dependendo de cada rede, um para ser aprovado numa disciplina precisa fazer oito avaliações normais, mais quatro avaliações de recuperação paralela, cujos resultados devem substituir a menor nota obtida entre as duas que compõem a média de cada bimestre e, final do ano letivo, caso ele tenha feito doze avaliações e mesmo assim a sua promoção esteja em xeque, ele fará a décima terceira, também conhecida como “prova final”, se em todas as disciplinas ele tiver obtido o mínimo de quatorze pontos no somatório das médias dos quatro bimestres. Saliente-se que prova final terá o valor de dez pontos que serão simplesmente somados ao resultado que tenha obtido durante todo o ano. Caso ele ainda não obtenha a aprovação que ele quer e a família deseja que ela efetivada a qualquer custo, ainda há pressão para que professores sejam “generosos”, acrescentando mais um, dois...  sei lá quantos pontinhos para que as estatísticas fiquem favoráveis a quem elas interessam. Pode haver qualidade na educação com tanta permissividade?
A certeza que o aluno tem de que ele será aprovado, independentemente de se esforçar para isso ou não, que o leva a não cumprir com as tarefas e os deveres escolares que os professores preparam para reforçar-lhes a aprendizagem. Para que resolver exercícios, perder tempo com isso, se não preciso me esforçar para passar de ano? Numa de quarenta alunos, o índice dos alunos que não realizam suas tarefas pode ultrapassar os 80%. O professor vai de carteira e carteira e muitos deles, instados a apresentarem os trabalhos que deveriam ter feito, dizem, em tom de deboche: “não fiz.”
Qualidade do ensino não depende, é claro, só de melhoria salarial. Ela depende também do grau de comprometimento da escola, do professor, do aluno e, fundamentalmente, da família. Muito dos pais enviam seus para escola e entregam toda a responsabilidade pela educação de seus filhos à escola. Lá, na maioria das vezes, só comparece quando da efetivação da matrícula. Quando o menino ou menino faz alguma coisa de errado, ou vai mal nos resultados, quando convocados pela direção para uma conversa sobre o filho, mandam recados desaforados de que tem mais o que fazer.
Também é verdade que, assim como acontece nas demais profissões, há professores e professores. Existem aqueles que se doam, independentemente daquilo que lhes pagam no fim de cada mês como também há aqueles que, ganhando o maior salário do mundo, não estão nem aí com o aprendizado de sua clientela.
Se a melhoria salarial não resolve o problema da qualidade do ensino, também a sua falta, de algum modo, há de influenciar, só que de modo negativo. Como pode o profissional dar o melhor de si se, ao final de mês, o salário mal pode pagar pelas suas necessidades básicas: água, energia e alimentação. E o que fazer para se manter atualizado com as novidades de sua disciplina? Fazer assinatura de uma revista especializada, de jornais, revistas?  Comprar livros para uma biblioteca particular a que possa recorrer durante a elaboração de provas e trabalhos escolares? Isso  está fora de cogitação, menos que ele se decida por apertar ainda mais o cinto.
Um piso salarial de R$ 1.451,00 que, diga-se de passagem, a maioria dos estados e municípios não pagam e se negam a cumprir aquilo que determina a lei, obriga o professor trabalhar três turnos diariamente para ter uma condição financeira melhor. Essa montanha de dinheiro é para o profissional com graduação superior. O Senado da República, em concurso recente, vai pagar a um técnico de nível médio a bagatela de R$ 13.500,00 como salário. Claro que eles vão ganhar bem se se comparar essa quantia com o piso nacional de professores de todo o país. Isso porque os professores, conforme informe publicitário institucional, veiculado em todas as mídias nacionais, sobre a importância do papel do professor na preparação de todos os profissionais deste país e do mundo: “em tudo há a mão do professor”.
Imagine se não houvesse...

domingo, 11 de março de 2012

Ambiguidades e estrangeirismos

Cuidado com as ambuidades da língua e o uso exagerado de termos estrangeiros no dia-a-dia. Com as ambiguidades, por causa das interpretações; com os estrangeirismos, para não denotar ignorância nem esnobismo.


De tudo um pouco

            O Joãozinho – era assim como o chamavam – dizia para todo mundo da escola ouvir que o Roberto – o professor de Matemática – era um “gato”. Todos sabíamos que ele agia assim por causa de seus trejeitos efeminados de falar e de andar. Além disso, o próprio Joãozinho fazia questão de mostrar essa sua condição.  Roberto não se importava com isso nem a mulher dele, mas “a outra”, sim. Essa morria de ciúmes. E Joãozinho fazia isso exatamente para exacerbá-la.
            Um homem chamar outro de “gato”, como fazia Joãozinho, produz sérias implicações no tocante à sexualidade do indivíduo. O mesmo não acontece quando quem faz a mesma afirmação é uma mulher. O sujeito, ouvindo isso, até ficará todo cheio de si, porque não há quem não goste de ter o seu ego massageado, principalmente quando quem faz tal afirmação é uma mulher espetacularmente bonita e graciosa.
            Agora não precisa nem imaginar qual seria a reação de uma mulher que tivesse sido chamada por um homem (ou por outra mulher) de “gato”, principalmente se a essa denominação fossem acrescidos os adjetivos “safado” ou “sem-vergonha”. Obviamente a gente sabe por quê.
            Tudo isso acontece por causa das variações de sentido que a palavra “gato” assume quando contextualizada. A Língua Portuguesa tem destas coisas. Lembro-me do meu primeiro Vestibular. Uma questão formulada a partir do sentido que se atribuísse às palavras “futuro” e “negro” na frase, elas não somente mudariam de classe gramatical, mas também provocavam duas interpretações distintas. Ela me marcou de tal forma, que, passados hoje trinta seis anos, jamais me esqueci dela e a qual reproduzo a seguir.

            “Esta preta dará um futuro negro ao Brasil”.

            Sem picuinhas quanto se a frase é ou não politicamente correta, podemos interpretá-la assim: se “negro” for adjetivo e “futuro”, substantivo, podemos interpretar que a preta exercerá uma ação malévola nos destinos do país. Se, entretanto, “negro” for substantivo e “futuro”, adjetivo, então a interpretação muda drasticamente, porque agora se entende que a preta dará um filho ao Brasil.
            Todos nós conhecemos esta conhecida máxima popular: “Mais vale um cachorro amigo que um amigo cachorro”. É pelo mesmo motivo, isto é, pela inversão dos elementos e conseguintemente com a mudança de classe dos mesmos que “cachorro amigo” não é a mesma coisa de “amigo cachorro”.
            Há outra situação que considero engraçado é quando alguém faz perguntas como estas: “Como está a cachorra da tua mãe?”  ou “Como vai o cavalo do teu pai?” As perguntas causam certa estranheza por conta de não se saber a respeito de que se pergunta: da cachorro ou da mãe; do cavalo ou do pai. Se bem que a entonação é fundamental para se compreender que se trata de uma pergunta banal informativa, ou se deliberadamente feita com a intenção de ofender.
            O brasileiro, apesar de seu propalado antiamericanismo, não despreza a língua do “odiado” Tio Sam. Parece que, se há uma coisa que ele detesta, é a língua: a Língua Portuguesa. Por que “delivery”, se temos “entrega”? Por que “off %”, se temos “descontos”? Quando andamos por um “shopping”, por vezes se tem a impressão, ou de que falamos outra língua ou de que estamos em outro país de língua inglesa, menos no Brasil. Que tal uma passagem nas listas de candidatos aprovados nos vestibulares ou nos concursos públicos? A quantidade de consoantes dobradas nos nomes e sobrenomes, nomes que mais parecem ser de uma legião de estrangeiros que invadiu nosso país e arrebatou dos nativos as vagas destinadas a eles.
            Claro que não se pode impedir, por meio de decreto, a “invasão” de palavras alienígenas ao nosso dia. Que o digam as novas tecnologias. Não há nada que desabone o uso dessas palavras. Se falta uma em nossa língua que lhe seja correspondente, ou mesmo havendo, se a original traduz melhor o que isso ou aquilo significa, pode empregá-la perfeitamente. Quem não sabe que “know-how”, mesmo numa tradução não literal, significa “tecnologia”? Entretanto, situações há em que é melhor empregar “know-how” que a sua tradução. O que se condena é o uso exacerbado de estrangeirismo, sem necessidade, senão por frivolidades ou esnobismos.