As personagens deste conto (principal e coadjuvantes) obviamente não são reais, porque personagem não são pessoais reais de carne e ossos. Os fatos narrados não são verídicos, mas estão assentados na realidade de um fato ocorrido nos anos '70.
Construção
“E se acabou no chão feito um pacote tímido”
(Chico Buarque)
Damião havia meses estava desempregado. Desde que fora despedido do último emprego, batera em todos os canteiros de obra da cidade e sempre a mesma resposta: não. Muitas vezes nem precisava perguntar. Numa placa grande, com letras vermelhas, presa ao tapume, a informação dura e secamente: não há vagas.
O último salário, sendo gasto com o máximo de parcimônia, consumia-se com as mais absolutas das necessidades. Nada de luxos. Nem aqueles ossos, só com vestígios de que ali houvera carne antes, que os magarefes vendem para os pobres, para que eles se imaginem comendo o produto, apenas com o gosto de um caldo fino. Minguava a cada dia, confirmando aquilo que a sabedoria popular diz: de onde se tira e não bota, acaba.
Logo, logo seu nome estaria assentado nos cadernos de fiados de um pequeno comerciante. Tomara Deus que não! E ele se benzia várias vezes só de pensar nessa possibilidade. Mas ia já ficando cansado de tanto andar pelas ruas, indo de um canteiro a outro, e de recebe tantos nãos. A bicicleta Monark, seu desejado e realizado sonho consumo, juntara-se para reforçar as últimas migalhas de seu salário. Chorara muito, em silêncio, quando o homem entregou-lhe o dinheiro e a levara de si. Sentira-se, enquanto olhava para aquele punhado de notas miúdas, como Judas. Por pouco não as jogara longe, porque elas lhe queimavam as mãos. A sua Monark havia sido seu único meio de transporte particular. Fora seu automóvel de passeio, seu ônibus e sua ambulância. Compraria outra.
– Com fé em Deus, compro outra, quando esta situação melhorar!
As coisas, porém, continuaram indo de mal a pior. A Indústria da Construção Civil nunca vivera momentos de tantas dificuldades. Os investimentos sumiam. Prédios inacabados por falta de compradores. Cada qual defendia seu patrimônio como podia do dragão da inflação. Oitenta por cento ao mês. Isso pelos índices oficiais do governo. Certamente era mais que isso, porque os governos tendem a esconder a inflação real, para fazer acreditar que o país ainda tem jeito, mesmo decretando moratória com a célebre fórmula: devo, não nego; pago, quando puder.
O salário de Damião finalmente acabou. Seu Chico, o dono da mercearia, não queria mais ninguém no seu caderno de fiados. Os clientes reclamavam dos preços na hora de pagar. O preço cobrado era o preço do dia do pagamento. Aquela fórmula de correção monetária mal dava para continuar no ramo. Quem não pagasse, perderia o crédito e o fornecimento para o mês seguinte. A adimplência era a garantia de permanência do nome em seu caderno.
Damião estava no caderno de seu Chico. Teve que se humilhar. Não tinha renda fixa. Como pagaria? Trabalharia fazendo bicos, até conseguir ser fichado novamente. Seu Chico aceitou. Seu crédito rotativo era certamente o mais nanico de todos. Pelo menos não passariam fome, de todo. Feijão, farinha, óleo, um pouco de arroz, macarrão e uma sardinha. Dava para pagar. O operário conseguia quitar seu débito e logo se endividava para o mês seguinte. Até que um dia...
Até que um dia a conta não fechou. Damião não pôde pagar a conta da mercearia. Precisava de comida, mas seu Chico foi taxativo:
– Sem pagamento, sem comida.
Em casa as crianças choravam com fome, pedindo o que comer. Ele mesmo e a mulher mal comiam para que os meninos tivessem um pouco mais que eles. Eram adultos. Podiam suportar a dor. As crianças são filhotes de passarinhos nos ninhos, sempre de bicos abertos, piando, pedindo comida, sem se importarem com os esforços da mãe para conseguir o alimento.
No mês seguinte, Damião viu a casa ficar às escuras. A Companhia de Eletricidade cortara-lhe o fornecimento. Dez talões atrasados e o homem alicate galgou o poste com a habilidade de um símio. As crianças reclamavam do escuro. Elas agora não tinham mais a televisão. A mulher perdera a sua máquina de fantasias. Adeus às novelas. Talvez pudesse assistir a elas na casa da vizinha. Mas certamente a vizinha não iria tolerar a presença dela na sua sala todas as noites. Não iria. Nascera e se criara sem televisão! Aguentaria. O que não dava para aguentar era ir dormir cedo para esquecer o vazio no estômago. Aquele arroz com feijão não lhe dava sustância. Aquilo não matava a fome. Era só um meio de enganá-la.
Se a coisa estava difícil, ela degringolou de vez quando a mulher de Damião abriu a torneira e não saiu dela uma gota de água. Não havia faltado água, foi o que ela constatou quando deparou os homens da Companhia de Águas e Esgotos cortando seu fornecimento. Também os talões se amontoavam por falta de pagamento. A mulher de Damião era mais uma de tantas Amélias que, agora, não achava nada bonito não ter o que comer nem beber. Sua paciência estava no limite. Ficar sem comer, sem eletricidade era difícil, mas sem água a coisa ficaria pior.
Damião soube que uma firma estava contratando trabalhadores para construir um condomínio no outro lado da cidade. Ele madrugou a pé para conseguir uma vaga. A fila já estava enorme. Torcia para conseguir uma das vagas. Ela seria para ele como um único bote salva-vidas no meio do oceano. De repente, quando estava já próximo à entrada do portão, a fila começou a se desfazer e da frente veio como uma onda a informação de o quadro acabara ser completado. Damião não desistiu. Falou com o mestre de obras encarregado. Apesar de seus apelos, o homem, abanando a cabeça, disse-lhe:
– Sinto muito, mas todas as vagas foram ocupadas.
Damião saiu dali desesperado. Sem emprego, adeus comida, água, luz, diversão. Sentia o mundo afundando a seus pés. As crianças estavam magras. A mulher e ele ficando de olhos fundos, esqueléticos, cheirando mal, as roupas em péssimo estado. Seus pés doíam no calçamento rude. O chinelo de tiras estava em frangalhos. A cabeça doía-lhe, latejava. Os prédios à sua volta começavam girar. O sol ardia mais do que nunca. As buzinas dos carros eram ecos perdidos, longínquos. Os transeuntes como ele eram fantasmas que o atormentavam.
Damião parou no meio da rua. Seu olhar estava perdido. Por mais que buscasse uma saída, tudo se fechava ao seu redor. Olhou para cima. Uma torre de televisão no outro lado da rua. A torre de televisão poderia ser a sua salvação. O portão estava aberto. A vigilância, desatenta, nem percebeu sua entrada, ainda que ele não tivesse feito qualquer esforço para ocultar-se. O operário subiu rapidamente até o ponto mais alto a que pôde chegar. Estava a mais de quarenta metros do chão. Lá de cima começou a gritar.
O vigilante chamou o Corpo de Bombeiros. Um homem ameaçava se atirar da torre de TV. O chefe da guarnição aproximou-se o máximo que pôde para conversar com Damião. Ele gritou que se atiraria se o bombeiro de se aproximasse mais. O oficial pedia-lhe calma. Queria saber por que ele queria fazer aquilo. O operário se explicava, mas não dizia coisa com coisa. Era preciso ter paciência nesses casos. Aquele homem estava transtornado. O bombeiro-chefe queria instalada uma rede debaixo da torre para o caso de moço se atirar dali. Faria de tudo para salvar aquela vida.
Mas o Capitão-bombeiro não pôde realizar o que se prometera. Naquela hora, um grupo de adolescentes, alunos de uma escola frequentada pelos filhos das famílias mais ilustres e tradicionais da cidade, chegara ali, atraído pelo telejornal transmitindo, ao vivo, aquele homem em seu momento de desespero. Eram todos filhinhos de pai, bem nutridos, vestidos, do Colégio dos Padres. Desde criancinhas estudavam ali, orientados pelos franciscanos a se comportarem como verdadeiros cristãos. Afinal foram batizados e crismados com os santos óleos.
Quando o bombeiro tentou novamente puxar conversa com Damião, o moço ameaçou se jogar. Muitas vezes esteve na iminência de consumar o ato. O oficial pedia-lhe calma. Então, aqueles filhinhos de papai começaram a gritar:
– Pula, covarde! Pula, covarde!
Damião, mesmo no fundo de sua loucura, tinha sua dignidade. Era um homem de honra. Ele, que lutara tanto para não viver aquele momento, não poderia ser chamado assim de covarde. Ele ameaçou jogar-se e turma, lá embaixo, como se aquilo não passasse de uma brincadeira, gritava, em coro:
– Pula! Pula! Pula!...
E Damião pulou. O abismo o engoliu num único sorvo. Seu corpo desajeitado, as pernas e os braços abertos, um grito lancinante, talvez de arrependimento, feriu a atmosfera ao redor. O calçadão recebeu seu corpo, transformando-o numa massa amorfa, com sangue espirrado ao seu redor, como um prato com a comida ao centro e o molho vermelho contrastando com a sua brancura.
Damião quedou ali para sempre. A turba se desfazia e desaparecia paulatinamente pelas esquinas. Os filhinhos e filhinhas comedores de hóstia fugiam do sangue daquele que eles acabaram de apedrejar. Teria sido aquilo o que aprenderam nas aulas de catecismo? Aquilo fora um belo exemplo de cristianismo e solidariedade.
Os homens do IML fizeram seu trabalho. As luzes dos holofotes, os flashes das máquinas fotográficas, as mãos habilidosas dos jornalistas anotando a futura matéria em seus arabescos estenográficos e a multidão de curiosos que não arredou pé dali até o carro-tumba retirar o corpo do falecido. Nessa noite, as rotativas trabalhariam a pleno vapor. Na manhã seguinte, as bancas venderiam os jornais, os assinantes receberiam em casa seus exemplares. Damião era notícia. Adquirira notoriedade. Pelos menos por um dia. A televisão faturara alguns pontinhos de IBOP. Seria notícia repetida até o telespectador mudar de canal.
O valor de um jornal depende do calor de suas notícias. Com as cinzas, Damião voltaria ao anonimato de onde nunca deveria ter saído.