Assim falou Zarastruta
Naquela tarde de um dia da semana, do mês e do ano dos quais não consigo lembrar, adentrei à nossa casa, desconfiado, porque mamãe estava com visita.
Explico o desconfiado. Naquele tempo, quando o pai ou a mãe estava com visita, criança, digo melhor, menino, em sentido geral, era impedido de ficar ouvindo a “conversa de adultos”. Por isso, se não houvesse outro jeito de evitar a passagem por entre a visita ou visitas, passava-se rapidamente, sob o olhar severo e ameaçador dos pais, até o sujeito sumir na porta para o quintal ou em outro aposento qualquer, desde que longe da sala de visitas. Dizia-se que era para a criança não se intrometer em assunto de adultos. Menino era “bicho” arteiro e podia sair comentando sobre coisas que não devia. Portanto, era terminantemente proibido criança estar na sala de visitas e principalmente dar palpite nessa conversa entre pessoas adultas.
Eu sabia disso, todavia não sei por que desobedeci, de uma tacada só, a essas duas regras elementares. Minha mãe conversava com a visita, e eu, apesar de não estar perturbando a prosa (pelo menos no meu ponto de vista), não pude deixar de perceber o olhar meio enviesado de minha mãe na minha direção e o jeito pouco à vontade da senhora que privava com ela daquele momento ímpar, mal conseguindo disfarçar seu mal-estar, numa censura direta à minha presença e, por extensão, à minha mãe.
Quando cheguei a casa, a prosa entre as duas já rolava há um bom tempo e se prolongou por mais de meia hora, quando, finalmente, a visita anunciou sua intenção de se ir para casa, antes que eu quebrasse a segunda regra: a de não se meter na conversa de adultos. Mamãe relatava um caso recente na cidade, muito comentado nas rodas de conversas nas boas casas de família ou ao pé do balcão dos botequins. A certa altura de seu relato, que eu acompanhava, atentamente, de longe, sem olhar para elas. Nesse momento, vendo que a história não era “bem assim”, eu a interrompi, inesperadamente, dizendo:
– Mamãe, não foi assim, não!
Aquilo teve o impacto de uma bofetada na cara dela. A visita me encarou, incrédula, sorriu um sorriso amarelo para minha mãe e esta, certamente contendo-se, disse-me, muito calmamente:
– Não foi assim, não?! Então conte para nós como foi, meu filho!
Eu me senti nas alturas com aquele “conte para nós” e me pus a relatar a versão que conhecia do fato, todo ensoberbado, tal a rã que tentava imitar o tamanho do boi. Qual menino, na minha idade, tinha aquele privilégio de poder estar entre as visitas e ainda por cima poder palpitar na conversa! Era demais para mim! O que eu não sabia era o que estava por trás daquele pedido tão gentil: “conte para nós, meu filho!”
A visita anunciou que era hora de partir. Minha mãe, assim como faziam e ainda fazem a maioria das anfitriãs, disse:
– Já vai?! Tá cedo!...
Na verdade, a visita já percebera, por certo sinais, o incômodo do anfitrião ou anfitriã e cuida de dar o fora antes que alguém ponha uma vassoura atrás da porta.
A senhora se foi. Eu estava encantado com a minha atuação. Mamãe parecia contar os minutos até ver a visita ficar bem distante de nossa casa. Ela deixou a porta após certo tempo. Pensei que ela havia gostado muito da prosa daquela visita. Depois que ela saiu de lá, passou por mim diretamente para o quarto mais próximo. Eu continuei sentado à mesa. De repente, ela apareceu na porta e me chamou calmamente, tendo as mãos atrás das costas. Fui todo solícito e, quando me postei diante dela, agarrou-me o braço, num bote certeiro e, mostrando uma corda dobrada em três pernas, disse-me:
– Isso aqui é para você aprender a nunca mais se meter na minha conversa com as visitas.
Nem preciso dizer que o couro cantou alto e conversado. Nessa tarde, eu fui aos píncaros da glória e ao fundo do poço. Ah, como a fama é efêmera! Isso eu aprendi cedo. Mais tarde li, parece-me a moral de uma fábula que dizia mais ou menos assim: cuidado ao subir, porque a queda, para quem foi tão alto, dói mais do que para aquele que mal conseguiu tirar os pés do chão.
Se você está pensando no ódio que tive de minha mãe por causa disso, esqueça. Também a gente aprende com a dor. Eu conhecia as regras e desobedeci a elas. Justo, portanto, foi o meu castigo. Aprendi a lição de nunca me meter em assuntos que não me diziam respeito, ou para o qual não fui convidado. Quando a conversa ao pé do ouvido não surte efeito e todos os argumentos se esgotaram, você pode, por direito, discordar de mim, mas uns tabefes aplicados, na hora e na medida certas, são um santo remédio para evitar que o pau que nasceu torto, ou tendeu a ficar torto, morro torto. Melhor são os pais consertarem o pau que ameaça entortar-se que a polícia, porque as batidas dela doem muito mais.Ai, como doem!
Lembre-se do dito popular: pela falta de um grito pode-se perder uma boiada! Quantos bois estão se perdendo pela falta dele!
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