domingo, 11 de março de 2012

Ambiguidades e estrangeirismos

Cuidado com as ambuidades da língua e o uso exagerado de termos estrangeiros no dia-a-dia. Com as ambiguidades, por causa das interpretações; com os estrangeirismos, para não denotar ignorância nem esnobismo.


De tudo um pouco

            O Joãozinho – era assim como o chamavam – dizia para todo mundo da escola ouvir que o Roberto – o professor de Matemática – era um “gato”. Todos sabíamos que ele agia assim por causa de seus trejeitos efeminados de falar e de andar. Além disso, o próprio Joãozinho fazia questão de mostrar essa sua condição.  Roberto não se importava com isso nem a mulher dele, mas “a outra”, sim. Essa morria de ciúmes. E Joãozinho fazia isso exatamente para exacerbá-la.
            Um homem chamar outro de “gato”, como fazia Joãozinho, produz sérias implicações no tocante à sexualidade do indivíduo. O mesmo não acontece quando quem faz a mesma afirmação é uma mulher. O sujeito, ouvindo isso, até ficará todo cheio de si, porque não há quem não goste de ter o seu ego massageado, principalmente quando quem faz tal afirmação é uma mulher espetacularmente bonita e graciosa.
            Agora não precisa nem imaginar qual seria a reação de uma mulher que tivesse sido chamada por um homem (ou por outra mulher) de “gato”, principalmente se a essa denominação fossem acrescidos os adjetivos “safado” ou “sem-vergonha”. Obviamente a gente sabe por quê.
            Tudo isso acontece por causa das variações de sentido que a palavra “gato” assume quando contextualizada. A Língua Portuguesa tem destas coisas. Lembro-me do meu primeiro Vestibular. Uma questão formulada a partir do sentido que se atribuísse às palavras “futuro” e “negro” na frase, elas não somente mudariam de classe gramatical, mas também provocavam duas interpretações distintas. Ela me marcou de tal forma, que, passados hoje trinta seis anos, jamais me esqueci dela e a qual reproduzo a seguir.

            “Esta preta dará um futuro negro ao Brasil”.

            Sem picuinhas quanto se a frase é ou não politicamente correta, podemos interpretá-la assim: se “negro” for adjetivo e “futuro”, substantivo, podemos interpretar que a preta exercerá uma ação malévola nos destinos do país. Se, entretanto, “negro” for substantivo e “futuro”, adjetivo, então a interpretação muda drasticamente, porque agora se entende que a preta dará um filho ao Brasil.
            Todos nós conhecemos esta conhecida máxima popular: “Mais vale um cachorro amigo que um amigo cachorro”. É pelo mesmo motivo, isto é, pela inversão dos elementos e conseguintemente com a mudança de classe dos mesmos que “cachorro amigo” não é a mesma coisa de “amigo cachorro”.
            Há outra situação que considero engraçado é quando alguém faz perguntas como estas: “Como está a cachorra da tua mãe?”  ou “Como vai o cavalo do teu pai?” As perguntas causam certa estranheza por conta de não se saber a respeito de que se pergunta: da cachorro ou da mãe; do cavalo ou do pai. Se bem que a entonação é fundamental para se compreender que se trata de uma pergunta banal informativa, ou se deliberadamente feita com a intenção de ofender.
            O brasileiro, apesar de seu propalado antiamericanismo, não despreza a língua do “odiado” Tio Sam. Parece que, se há uma coisa que ele detesta, é a língua: a Língua Portuguesa. Por que “delivery”, se temos “entrega”? Por que “off %”, se temos “descontos”? Quando andamos por um “shopping”, por vezes se tem a impressão, ou de que falamos outra língua ou de que estamos em outro país de língua inglesa, menos no Brasil. Que tal uma passagem nas listas de candidatos aprovados nos vestibulares ou nos concursos públicos? A quantidade de consoantes dobradas nos nomes e sobrenomes, nomes que mais parecem ser de uma legião de estrangeiros que invadiu nosso país e arrebatou dos nativos as vagas destinadas a eles.
            Claro que não se pode impedir, por meio de decreto, a “invasão” de palavras alienígenas ao nosso dia. Que o digam as novas tecnologias. Não há nada que desabone o uso dessas palavras. Se falta uma em nossa língua que lhe seja correspondente, ou mesmo havendo, se a original traduz melhor o que isso ou aquilo significa, pode empregá-la perfeitamente. Quem não sabe que “know-how”, mesmo numa tradução não literal, significa “tecnologia”? Entretanto, situações há em que é melhor empregar “know-how” que a sua tradução. O que se condena é o uso exacerbado de estrangeirismo, sem necessidade, senão por frivolidades ou esnobismos.  

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