segunda-feira, 5 de março de 2012

soliariedade ou ambição?

Solidariedade ou ambição? Leia o texto seguinte, tire suas próprias conclusões. Pessoalmente, sei que, por mais que eu tenha desejado fisgar aquele peixe, o gesto de jogar o anzol na água não foi acompanhado de "ambição pela glória". Você, porém, é agora o juiz ou juíza.


Imbicioso

            Não eram mais que cinco da tarde quando eu e Carlos terminamos de preparar o angu para pescar no rio. O angu era uma mistura de farinha de mandioca, algodão e água socada ao pilão.
            Pegamos as varas de pescar e lá fomos nós. Eu estava deveras ansioso, porque nunca havia pescado antes. Carlos me dera as noções elementares do que tinha a fazer quando o peixe pegasse a isca e puxasse a linha.
            – Você dá uma puxada para a direita ou para a esquerda, para ferrar o peixe; depois puxe para cima, para tirar o peixe d’água.
            Entramos no rio até a água chegar um pouco acima dos quadris. Os anzóis já estavam devidamente iscados. Estávamos próximos, um ao lado do outro. Carlos foi o primeiro a lançar o anzol na água. Eu assistia ao que ele fazia como se ele estivesse fazendo uma demonstração para mim.
            Repentinamente, vi quando a linha de sua vara retesou e Carlos, como pescador experimentado, fez exatamente o que me mandara fazer. Todavia, no último passo, quando o peixe foi tirado para fora da água, ele se desfisgou do anzol e blaft!... caiu de volta no rio. Atirei meu anzol na água imediatamente e Carlos protestou veementemente. Posso dizer que o achei furioso, principalmente quando ergui o mesmo peixão que se desferrara de seu anzol.
            – Imbicioso! – ele gritou para mim. – Tu é um imbicioso!...
            Eu não sabia ao certo o que ele queria dizer. Pela sua reação, porém, compreendi que havia tirado dele algo que ele muito queria: aquele pacu de quase dois quilos
            – Eu não sou isso que tu tá dizendo. Joguei o anzol para o peixe não fugir. O peixe não é só meu; ele é nosso!
            Carlos, entretanto, não quis me dar ouvidos. De nada adiantava a minha explicação. Ele ficara de tal modo aborrecido, que não quis mais saber da pescaria. Voltamos para casa. Eu, exibindo o meu troféu; ele, bufando de raiva.
            Quando chegamos a casa, eu corri para mostrar o peixão que acabara de pegar. Todos se mostravam admirados com o tamanho peixe. Eu, segurando-o com algum esforço, exibia-o cheio de orgulho. Carlos, quando viu o pai dele, disse:
            – Pai, esse minino é muito imbicioso!
            Eu reagi, indignado, e contei exatamente como tudo havia acontecido. E ainda acrescentei:
            – Tu quer o peixe pra tu? Eu te dou!
            Carlos respondeu que não e continuou me insultando.
Cansado de dar explicações, esqueci o Carlos. “Imbicioso” ou não, o peixe era meu. Se ele vira no gesto o que ele chamava de ambição, eu via no seu uma reação de pura inveja. Na verdade, Carlos não queria que eu jogasse o anzol para que a glória de tê-lo pescado fosse só dele. No nosso embate com o peixe, ele queria que eu fizesse o papel de escudeiro e ele, o de cavaleiro. E todo mundo sabe que é o cavaleiro vencedor quem ganha os aplausos calorosos da platéia presente na arena.      

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