Você acredita em milagres? Não? Pois olhe que eles acontecem, todos os dias, nos lugares e nos momentos mais diferentes. Senão vejamos o milagre que uma sementinha pôde realizar.
Milagres
Seulement une trés petite fleur...
Uma semente. Apenas uma minúscula semente, tão pequenina quanto um grão de mostarda, que uma enxurrada viera depositá-la, na terra árida, ao pé do poste de luz. Depois, uma plantinha frágil, com duas folhinhas apenas, nascera em meio a outros arbustos. Cresceria imperceptível, anônima, não fosse uma única flor que ela ostentava como uma menininha com um laço colorido na cabeça.
É uma flor muito simples: cinco pétalas, separadas entre si, como se fosse um pequeno catavento, em tom róseo, na parte superior, tornando-se cada vez mais intenso, à medida que avança para o centro, onde um pequenino círculo esbranquiçado, com um furinho, parece sugerir que ali havia algo outrora. Na parte inferior, o branco dominando uma textura macia, sedosa, tal aquela, na parte interna de um terno ou de um casaco de luxo. Seu cheiro não é agradável; todavia, a sua beleza compensa esse seu único aspecto negativo.
A plantinha crescera e mais e mais flores iguais àquela surgiram nas extremidades de cada um de seus ramos. Seu formato arredondado, compacto, inteiramente florido, parecia uma noiva com a cabeça coberto por um véu alegremente colorido. E aquele poste de concreto, rijo, ereto, apontando para o céu feito um obelisco, agora tinha, ao pé de si, a alegria colorida de tantas flores e dos insetos em festa.
Os transeuntes olhavam para ela cobiçosos. À sorrelfa, alguns deles levaram pedaços de seus ramos, na tentativa de formarem, a partir deles, uma planta tão bonita quanto aquela. Tudo em vão. Como uma vingança por terem lhe causado o sofrimento de arrancarem seus galhos, sem lhe consultar e ainda, impiedosamente, nenhum deles teve a planta que tanto desejavam.
Dias atrás, eu vi diversas vagens pequeninas. Algumas em formação, outras formadas, mas ainda não amadurecidas, e outras ainda, em número menor, maduras, prontas para serem colhidas ou deixadas para que se abrissem e deixassem que a própria planta fizesse a semeadura, segundo os ditames da mãe-natureza.
Colhi dezenas e dezenas dessas pequenas vagens. Extraí delas muitíssimas sementes, todas nigérrimas como o ébano, semeei uma porção delas e guardei outro tanto para que, em caso de morte da minha belíssima boa-noite (Lochnera rosea), outra possa sucedê-la.
Olhando para aquelas inúmeras sementinhas, lembrei-me de que todas vieram de apenas uma semente tão minúscula quanto elas. Milagre da vida. Concentrado, na palma de minha mão, o poder da Natureza. O milagre da multiplicação da vida, pois cada uma delas, germinando, produzirá milhares e milhares de outras iguais a elas. Imagino quanta beleza as minhas sementes poderão gerar com os milhares de flores róseas cobrindo de alegria os canteiros dos jardins.
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