A bêsta Rosinha
Corria o anno de 1925.
Naquella tarde emsolarada de um domingo festivo, fui ao matto buscar a minha égua. Apezar de sua pelagem ruça, eu dei a ella o appellido de Rosinha. Era um animal excellente de sella. Puz n’ella uns bonitos arreios que meu pae comprou e me deu de presente no Natal passado.
Era o dia do nosso sancto padroeiro e, em sua homennagem, os cavalleiros da cidade, aquelles que tinham suas melhores montarias, faziam dois gyros pelas duas ruas principaes: a Rua da Monarchia e a Rua Cuyabá. Preparei meu animal, vesti o meu melhor fato, puz o par de esporas de prata estylizadas nos pés, montei-a e entrei a accompanhar o séquito de cavalleiros.
A Rua Monarchia encheu-se do som estrepitoso dos cascos dos animaes batendo as ferraduras no calçamento azevichado de pedras talhadas em forma de paralelepidos. Eram batidas seccas e rythmadas que enchiam o ar e com as quaes não havia como alguém sentir somno.
Assim que eu e minha Rosinha entramos na Rua Monarchia, logo alli depois do primeiro quarteirão, avistei, entre tantas moças que nos viam passar de suas janellas, uma bellisima donzela que logo me pareceu olhar e sorrir para mim. Tinha uns olhos pretos como duas jaboticabas e uma bocca mui linda. Aquella bocca sorrindo mostrava uns dentes brancos como as teclas de um pianno de cauda. A minha égua marchava garbosamente, e eu, orgulhoso della, não tirava os olhos da moça da janella. Aquillo eram sympthomas de amor que estava accontecendo commigo.
No primeiro gyro, ao passar deante da fermosa donzela, ergui meu chapéo fazendo-lhe uma reverencia e derramando um subtil sorriso de conquistador. Ella pareceu corresponder ao meu acenno, porque olhou-me ainda mais directamente nos olhos e me pespegou o olhar até perder-me de vista.
Completado o primeiro gyro, a tropa retornou ao início da Rua Monarchia para aquelle que seria o derradeiro. Meu coração pululava feito um macaquito de um galho para outro. Queria muito rever a minha adorada Dulcinea (si bem que eu não sou magro nem feio feito Don Quijote). Juro pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Christo que vi os seus olhos procurando a mim em meio aquelle tropel. Puz minha Rosinha a andar justo à calçada para passar o mais próximo possível della. Cá com os meus botões, eu decidi que havia de dizer umas palavras áquella rica donna, porque, alem de ella me ter na mira de seus olhos, suas fauces brilhavam um sorriso gracioso que era certamente só para mim.
Dicto isso, logo que cheguei alli deante de sua janella, fiz o que a mim mesmo prometti. Fizl-a um respeitoso cumprimento e comecei a dizer-lha as coisas mais lindas que vinham de dentro de mim. Ella me olhava estupefacta sem dizer uma palavra. Depois, abrindo-se n’um sorriso emcantador, disse-me as palavras que mais me doeram o coração:
– Eu?! Interessada no senhor?! Não, o senhor está mui emganado! Eu não olhava esse tempo todo para o senhor... eu olhava era para bêsta, porque ella foi o animal que eu mais gostei!...
Sahi d’alli muito contrafeito e des esse dia nunca mais passei naquella rua de tão triste lembrança. Nunca esqueci, mas comprehendi que deveria apagal-o de minha vida.
E foi assim que um dia de triumpho, successo,Victória se transfformou na maior decepção.