sexta-feira, 30 de março de 2012

Bizarrias e estultices

Ao leigo se perdoam coisas como você verá no texto seguinte; aos sapientes, não. Se falam ou escrevem assim, ou é por ignorância, ou por negligência.


Bizarrices

       Constantemente, assiste-se na tv a pessoas do meio político confundirem alho com bugalho. Pessoalmente, já ouvi algumas dessas figuras afirmarem, em seus discursos ou em entrevistas, que a obra que está sendo entregue “veio de encontro ao interesse de nossa população”. Sendo assim, melhoria seria não a ter construído.
             Não bastasse essa asneira, temos de aguentar o pessoal de telemarketing ou do pessoal do check-in nos aeroportos dizerem aos ouvidos coisas como:
              a) O senhor vai estar pagando este valor naquele guichê e depois retornando aqui.;
       b) O senhor vai estar recebendo em sua residência as informações que nós vamos estar enviando semanalmente.
          Quando cessarão as ações de “pagar”, retornar”, “receber” e “enviar”, respectivamente? Nunca. Alguém, certamente, há de se cansar, se acostumar a ver repetir-se, indefinidamente, essas ações, isso se ele ou ela tiver paciência.
               Não bastasse essa praga exacerbada do gerundismo, ouve-se ou lê-se frases ou construções como estas, nas quais a palavra “enquanto” – conjunção subordinativa adverbial concomitante, visto que ela indica ações que acontecem ao mesmo tempo – vem sendo, de modo inadequado, não somente por leigos em matéria de conhecimentos gramaticais, como também por aquelas que posam como cultas nos saberes de nossa língua.
            Dizem elas:
            a) Eu, enquanto cidadão, devo zelar pelo respeito à dignidade da pessoa humana.;  
            b) Nós, enquanto estudantes, devemos lutar pelo direito a uma educação de qualidade.
         Doem-me os ouvidos, não tanto quando ouço o vulgo dizendo frases como essas, mas, principalmente, quando quem as pronuncia são pessoas que deveriam zelar pelo uso correto da linguagem padrão.
            Nesse caso tão simples, bastaria, em vez de “enquanto”, usar “como”, significando “na condição de”.
         Também quero me reportar a essa outra bizarria: a confusão que fazem alguns incautos com uso da conjunção “pois”, coordenativa explicativa (também ainda conclusiva) como se ela fosse subordinativa adverbial causal, equivalente a “por que”, como se pode ver em exemplos do tipo:
            a) Pedro não foi à festa de formatura, pois estava doente.;
            b) Os dois irmãos foram despedidos, pois chegavam atrasados ao trabalho.
            A conjunção “pois”, nos períodos supra, não estabelece relação de causa/consequência entre o que se diz nas duas orações que de se compõe o período. Tente inverter a ordem das orações e, se disso resultar em algo significativo, então eles têm razão; eu não.
            “Pois estava doente, Pedro não foi à festa de formatura.”  Tem sido isso para você?
            Desafio:
            No período seguinte, explique por que a conjunção “porque” tem valor explicativo, e não causal.

            O gato está morto, porque já não respira.

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