quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Textos de ficção e de não-ficção

                O texto "Assombração" é um relato com base numa história real, vivida por meu pai, quando a família vivia no Estado do Ceará. Aconteceu quando ele era ainda um menino da roça que viveu essa e muitas outras aventuras na companhia dos irmãos.
                O segundo texto, intitulado "Um anjo caiu em meu caminho", é uma ficção. O título fazia parte de uma proposta de produção de um texto narrativo para os alunos do 9º ano da E. M. Manoel Paulo Nunes, este ano, quando estudávamos as narrativas de mistério ou de enigma. Quem manda fazer algo também saber fazê-lo. Por isso eu também cuidei de fazer a minha parte.
                Vamos aos textos?

             Texto I


Assombração


S
empre que alguém falava de assombração, de alma, de coisa do outro mundo, meu pai, sempre cético, aproveitava para contar um caso de assombração do seu tempo de menino.
            Ele e os irmãos gostavam de caçar. Tinham uma matilha de cães ordinários, sem raça definida. Cachorros mais misturados que baião-de-dois. Mas eram bons de caça. Eram miúdos, pés-duros, porém corajosos e valentes, capazes de fazer frente até mesmo a uma pintada. Quando os homens não estavam dispostos a cair na mata, eles ficavam impacientes e iam sozinhos. Às vezes acuavam um bicho, num local mais remoto, latiam até dizer chega e desistiam, porque ninguém aparecia para atender ao “chamado” deles.
            O pessoal da vizinhança das terras de meu avô também apreciava essas idas ao mato pela necessidade de melhorar o cardápio. Uma carne de caça caía muito num prato  cheio  do velho arroz com feijão. As terras dos vizinhos, na verdade não ficavam tão perto assim. Mas, à noite, quando eles saíam e voltavam da caça, o dia quase amanhecendo, nos fins de semana, dava para ouvir o arruído deles chegando. Por causa do silêncio que rondava por lá, deu para notar que eles estavam há duas ou três sem sair para caçar. Uma noite eles saíram, mas retornaram cedo. Depois ficou-se sabendo o real motivo: eles não estavam indo caçar por causa de uma assombração, ou coisa do outro mundo que estava aparecendo para as bandas do grotão, lá para os lados da Baixa Grande.
            Abdom – o irmão mais velho e líder dos felisminos (a razão para esse sobrenome não oficial, no nome de meu avô, continua até hoje um mistério para mim)  – chamou os homens de lá de frouxos. Para ele, essa história era coisa de gente medrosa. Se existisse assombração – dizia ele – eu sou como São Tomé: só acredito, vendo. E logo mandou os irmãos preparar os fachos para caçarem. Os cães estavam impacientes, porque o trabalho de brocar roça era cansativo e eles precisavam estar descansados para a lida do dia seguinte. Os cachorros, parecendo atinar com a situação, mal escureceu, sumiram na mata. Estavam alegres como crianças diante de um brinquedinho. Aquilo era uma diversão para eles. Não demorou muito para que se ouvissem os primeiros latidos. Por certo haviam farejado algum animal. Aquilo era o sinal para que os homens fizessem o mesmo que eles: atirarem-se ao mato.
            A noite já ia alta, mas nem tanto. Ouviram-se vozes distantes. Eram os homens de lá – os vizinhos – que voltam tão cedo, justamente quando os bichos se sentem mais seguros para sair de seus esconderijos. Se voltavam tão cedo, era porque estavam com medo dessa tal de assombração. Tio Abdom virou-se, então, para os irmãos, indicando para que cortassem caminho na direção do grotão.
– Vamos tirar a limpo, hoje, essa história de assombração.
Papai – o irmão caçula – seguia cada passo de tio Abdom. Seguia-o, cegamente, morrendo de medo, mas seguia-o, porque confiava nele. Aquela ordem para que fossem para o grotão da Baixa Grande, fez-lhe as pernas e os dentes tremerem como se estivesse doente ou com frio. Tio Sérgio, o terceiro mais velho da família, seguia na frente, abrindo a picada com os golpes de seu facão afiado. Pedro, Odilo, Dionísio e Zé Lopes se revezavam com Sérgio, cortando o mato, ou segurando os fachos, cuidando para que eles não se apagassem. Um mundo de cipós e espinhos estava ali para impedir o avanço dos caçadores. Isso sem falar nos insetos atraídos pela luz das tochas.
            Depois de uma longa caminhada, parando de vez em quando para se orientarem,  tio Abdon estacou, abruptamente, abrindo os braços e pedindo silêncio.
            – Xi! – fez ele
Todos ficaram quietos durante alguns segundos, e, ao seu sinal, a caminhada recomeçou. Aproximavam-se de seu destino. O terreno tinha ficado difícil por causa de sua inclinação abrupta. A Baixa Grande estava ali perto.
            Outra vez tio Abdon parou de repente. Pediu silêncio e depois perguntou, em voz baixa:
            – Ouviram?!
            Como não obtivesse resposta, mandou seguir em frente. Alguns metros depois, ele parou e perguntou novamente:
            – Ouviram?
            – Sim!
          Dessa vez todos ouviram o que ele havia escutado: um gemido profundo, langoroso, tão penoso, capaz de gelar o sangue de qualquer um cristão temente a Deus e às coisas do outro, porque, além de pavoroso, ele parecia percorrer todo o vale. À medida que se aproximavam, todos estavam arrepiados. Os cabelos pareciam flutuar acima da cabeça. Era o medo.
            Finalmente, chegaram ao fundo grotão. Para lá afluíam todas as águas de chuva daquelas bandas. Além de uma quantidade pequena de água empoçada, havia um vão escavado na ribanceira, todo coberto pelas árvores, com suas enormes raízes de fora, por causa das enxurradas. Para chegar até lá, justamente de onde vinha aquele gemido tão apavorante, era preciso fazer malabarismo para vencer o emaranhado dessas raízes.
Logo que entraram nesse vão, aconteceu o gemido mais angustiante e amedrontador que se possa ouvir. O peso de gemido foi tão forte, que todos ficaram parados, como tivessem acabado de assistir à queda de um raio e ficassem esperando o estrondo de um trovão frotíssimo. Tio Abdom gitou:
– Avivem os fachos! Avivem os fachos!
Com os fachos clareando bem, eles cautelosamente foram se aproximando da tal assombração. Mais um gemido fez estremecer o chão e o silêncio da noite. O medo era grande, porém naquela noite, o misterioso gemido do grotão da Baixa Grande acabara ser resolvido. A gente de lá ficou muitos dias comendo somente arroz e feijão. Sempre que podiam, meu pai e seus irmãos saíam para caçar, sem medo. Afinal, essa história de assombração é coisa da cabeça das pessoas que acreditam em qualquer bobagem. A assombração de que tanto se falara antes, era uma vaca que, depois de lamber o barro salgado da ribanceira, deitara-se para um descanso à sombra e ficara com um dos chifres presos a uma raiz, sem poder se levantar.
Tio Abdon e os irmãos libertaram o bicho de sua armadilha, mas já era tarde demais. Por causa do esforço e de estar na mesma posição, o animal não segurava mais o pescoço. Se aquela gente medrosa tivesse ido ver o que acontecia ali, o pobre animal teria sobrevivido.   


Texto II

Um anjo caiu em meu caminho


O
 dia amanhecera cinzento. Nuvens densas e escuras cobriam o céu por inteiro. Apesar de todo o frenesi da cidade, as pessoas traziam estampadas, no rosto, um ar carregado de melancolia. Talvez porque o tempo estivesse frio.
Na rua, dentro de casa, no ônibus, nos automóveis, quem podia encolhia-se num canto, os braços cruzados sobre o peito, numa atitude típica de passividade. Eu também me sentia envolvido por essa estranha atmosfera. Se, naquele momento, não estivesse dirigindo meu carro, eu me recolheria a um quartinho aconchegante, sozinho, e deitaria ao papel algumas palavras que traduzissem todo o sentimento que invadira o meu ser. Quem sabe  um poema marcado pela nostalgia de uma saudade distante e intraduzível na sua plenitude! Eu escolheria certamente as palavras certas que dariam vazão à poesia que inundava a minha vida naquela manhã.
            A estrada deserta aumentava ainda mais minha sensação de solidão. As árvores passavam, velozmente, rodopiando, numa dança frenética, como se me dissessem adeus; as casas, como fantasmas, me olhavam com suas órbitas, sem olhos, e suas bocarras desdentadas. À medida que o carro avançava, o tempo ia se fechando cada vez mais. Parecia que a noite se adiantara ao dia. O céu se enchia de lágrimas, num choro copioso e ameaçador. O limpador de para-brisas pendulava convulsivamente. Mesmo assim, não conseguia ver direito o caminho.
            De repente, um solavanco impetuoso, uma guinada brusca para a direita, o mundo girando ao meu redor, um barulho ensurdecedor de ferros retorcendo-se e, finalmente, a quietude, a imobilidade.
Senti-me leve. Não sabia onde estava. Depois vi-me sentado sobre uma pedra gigantesca. Um rochedo cinzento, de granito. Tive a sensação de que algo me faltava. Alguma coisa que sempre estivera comigo e que, nesse momento, dava pela falta dela
. A chuva continuava intensa, desabando, ruidosamente, sobre mim. Minhas roupas estavam encharcadas. Todavia, eu não sentia frio. Relâmpagos tracejavam, com a maestria de artista, arabescos cintilantes, iluminando os caminhos para os trovões fortíssimos, que percorriam o espaço com o seu gargalhar ensurdecedor de gigante.
Com pouco avistei, logo adiante, o meu carro com as rodas para cima. Intrigava-me, sobremaneira, como eu chegara  até ali. Se por mim mesmo, não podia sabê-lo: a chuva havia apagado as minhas pegadas.
Movido pela curiosidade, levantei-me e fui até onde ele estava. As portas continuavam fechadas, com os vidros quebrados. Agachei-me, apoiando uma das mãos nele, e olhei para seu interior. Então me vi, novamente, sentado ao meu assento, de cabeça para baixo, sustentado pelo cinto. Sim, aquele era eu.
A chuva estava se dissipando. Uma vaga claridade começava a insinuar-se por entre as nuvens que se esgarçavam. Pouco tempo depois, estava tudo claro. Uns raios de sol, muito tímidos, conseguiram finalmente vencer as sombras. Pude ver, então, que pessoas me rodeavam enquanto outras vinham na minha direção. Alguém pôs uma das mãos em meu pescoço enquanto a com a outra examinava meu pulso. Pela expressão de seu rosto, entendi que nada mais se podia fazer.
Foi, então, que me sobreveio um desespero. Eu sentia, sim, que aquelas pessoas podiam fazer alguma coisa por mim. Passei a dizer isso a elas, mas elas não conseguiam me ouvir. Tentei segurar o homem que me examinara, porém ele passou por cima de mim, sem que eu me sentisse atropelado.
Nesse momento de desespero, como se estivesse vivendo o pior dos pesadelos e não conseguisse acordar, duas mãos me seguraram pelos ombros enquanto uma luz diferente, muito alva, suave e aconchegante me cercava. Uma sensação de paz intensa e de doçura infinita tomou conta de mim. Era um anjo, em suas vestes branquíssimas, límpidas e esvoaçantes como se elas estivessem sendo agitadas por uma brisa leve e constante.
Os paramédicos chegaram. Colocaram-me numa ambulância que partiu imediatamente, em desespero. O anjo sentou-se ao meu lado. Não dizia uma única palavra, mas os seus gestos de carinho me faziam compreender tudo. Enquanto estive no hospital, ele não saiu de meu lado.
Ainda hoje, depois de tanto tempo passado, sempre que me vejo em uma situação de perigo, ou triste por alguma decepção, o meu anjo aparece e me conforta, dizendo palavras de grande sabedoria que me ajudam a enfrentar os percalços da vida.
Sei, portanto, que posso contar com ele: o anjo que caiu em meu caminho.

  
   
   

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