Ao contrário do que se diz, ninguém tem o direito de se enganar. Não existe esse direito. As pessoas podem se enganar ou não. Eu não tinha o direito de me enganar; podia me enganar e me enganei, como no episódio que passo a relatar.
E ele ressuscitou dentre os mortos...
Cerca de vinte e poucos anos atrás, retornando do trabalho, um velório na casa de umas pessoas que eu conhecia de vista e de nome, mas com quais não mantinha quaisquer relações. Apesar de ser na minha rua, a residência distava uns quinhentos metros da minha.
Passei lentamente na frente, parei o carro adiante e perguntei a respeito do falecido. A pessoa me disse que tinha sido o filho do Machado*. De imediato, a minha memória registrou a imagem do moço que, a partir daquele momento, eu o via no rol daqueles que deixaram esta vida. Não sei por que pensei logo nele e não no seu irmão.
Fui fazer minha refeição, descansar um pouco e retornar para o trabalho. No serviço, eu fiquei pensado naquele extinto. Um moço de trinta e poucos anos morrer deixando três crianças por criar. O pensamento sempre na imagem que eu armazenara na minha mente. Eu me lembrei, então, de que certa vez, quando o meu automóvel teve um problema mecânico, eu vinha de ônibus, trazendo uma pasta volumosa na mão. O coletivo estava superlotado e ele, que estava sentado, pediu-me a pasta para melhorar a minha situação de aperto. Para mim, aquele moço, de quem o nome eu não sabia, iria, logo mais, descer à sepultura.
Durante anos, quando passava em frente à casa que era dos pais dele, eu me lembrava do moço. As crianças – três bonitas meninas – quando passavam em frente à minha casa, eu pensava no pai delas. Com a viúva, também me acontecia o mesmo. Aquele tinha se ido desta para sempre.
Mas um dia, ao dobrar uma esquina, na parte central da cidade, quase caí do susto que levei. Ainda bem que a pessoa não percebeu o melhor olhar de estupecfação, olhos esbugalhado, olhando para ela. Tudo aconteceu muito rapidamente: o morto havia ressuscitado.
Conheço a Bíblia, e ela fala da ressurreição dos mortos. Cristo ressuscitou ao terceiro dia. Mas aquele morto ressuscitou, para mim, cinco ou seis anos depois!
Na verdade, o morto não estava morto, porque nunca tinha morrido. A minha mente foi que o deu como morto naquele dia fatídico. Eu o havia matado, sem querer. Matei a pessoa errada. Matei-a no lugar de seu irmão.
Assim, o morto, eu o tinha como vivo; e o vivo, eu o tinha como morto.
Teresina, dez. 2011.
*O nome é fictício, mas o episódio, não.
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