Incômodos
Depois de ficar sabendo pela tv do
assassinato de um executivo de uma empresa da indústria de alimentos nacional
e, principalmente, do modus operandi
da assassina, fiquei pensando sobre como fora fácil para ela dar cabo do marido
e, em seguida, após consumar o ato ali no apartamento e ver o corpo, o cadáver
estendido no chão, a dificuldade de dar sumiço à principal prova do crime que
cometera.
Nada mais incômodo para um assassino do
que se livrar do corpo de sua vítima, notadamente aquele que eu chamo de
“assassino acidental”, justamente para distinguir do assassino contumaz ou
profissional. O cadáver cria como que uma espécie de ligação tão forte entre
ele e aquele que o produziu, que parece cola ou outra substância pegajosa que
se gruda, exatamente quando a preocupação é não deixar nenhum sinal que
estabeleça essa ligação.
Foi, após esse breve momento de
reflexão, que entrei a pensar naqueles que eu considero como os piores
incômodos que uma pessoa possa ter.
Você calça um sapato, tênis ou
sapatilha, começa a andar e, de repente, sem saber de onde nem como, sente um
corpo estranho machucando seu pé. Você tenta esquecer que aquilo está ali, mas
não consegue. Elegante ou não, você para, desamarra os cadarços (quando houver)
e lança fora aquele incômodo.
Agora pense numa mala grande. Encha
essa mala do que for necessário para fazer uma longa viagem. Ela certamente
ficara pesada. Agora, imagine que essa mala não é dessas modernas, que possuem
rodinhas deslizantes e uma alça telescópica. Durante a viagem, acontece, então,
o pior: a alça de sua mala se rompe e, agora, você se vê com uma mala grande,
pesada e sem alça. Quer incômodo maior?
Pode não ser o maior dos incômodos,
todavia esse tem lá sua grandeza. Você vai à feira e não leva o carro. Lá,
entre outras coisas, resolve levar para casa uma melancia. Como são muitos em
casa os que gostam da fruta, você opta por levar, senão a maior de todas, pelo
menos uma de peso médio. A fruta, além da casca lisa, tem um formato que não se
coaduna à sua anatomia, e ela, além de machucar, durante as tentativas de
adequação entre o corpo que a carrega, ameaça jogar seu dinheirinho no lixo, ao
querer escapar às suas mãos.
Meu Deus, como é terrível! Você
procura algo que está em algumas coisas acima de sua cabeça. Ao mexer ou
remexer nelas, um corpo estranho, um cisco, como um grão de areia, por exemplo,
cai num de seus olhos. Certamente isso já aconteceu a você. Ninguém melhor que
sua pessoa para descrever a sensação desagradável que isso provoca. E quando
alguém vem lhe dizer que isso não é nada, o melhor é responder que “pimenta nos
olhos dos outros é refresco.”
Uma noite, eu me lembro, queria
assistir a um telejornal e não conseguia me concentrar por causa do canto
estridente de um grilo, com qual não conseguia atinar onde estava, porque um
grilo, além de se calar, ao sentir a nossa aproximação, você o escuta aqui, mas
ele está ali e vice-versa. Quer incômodo maior que um grilo apaixonado, fazendo
seresta para sua amada? Acho que até ela mesma diria, irritada: “pare com
isso!”
No rol de tantos incômodos, que não
irei aqui enumerá-los todos, citarei dois de ordem fisiológica e dois de ordem
patológica.
Você se encontra em determinado lugar ou
situação e vem aquele aviso de que precisa ir a um banheiro e o tal banheiro
simplesmente não existe. O primeiro o aviso se trata de uma cólica intestinal
que ameaça fazer com que você borre as calças imediatamente; o segundo, menos
agressivo, nem por isso, menos incômodo, é aquele que você começa a sentir a
bexiga pressionando o pé da barriga como se ela fosse explodir.
Os incômodos de ordem patológica são
aquela dor de ouvido ou de dente iminente, que ameaça se concretizar. Quando
concretizadas, você sabe que, como qualquer dor, essas, também, por mais que
você se esforce em pensar que não existam, elas estão lá cutucando, machucando,
assim como fazem os torturadores.
Creio que a lista que
apresentei é totalmente subjetiva. Portanto, o que é incômodo para mim, pode
não ser para você. Em conhecendo outros, faça você mesmo sua lista, completando
a frase: “nada é mais incômodo que:...”
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