Ora, tenha
vergonha!
Todo mundo sabe: os gatos não
costumam deixar suas intimidades expostas. Por isso, quando têm de fazer suas
necessidades, eles não fazem em qualquer lugar. Preferencialmente, onde haja
areia ou terra solta. Eles fazem a desgraça dos pedreiros, contaminando areia
com seus excrementos e as mãos deles com as larvas que se desenvolvem nas suas
fezes e urina.
Há pouco tempo assisti a uma cena
reveladora do quanto os gatos levam a sério a questão da higiene e de sua
privacidade. Estava observando o gato da vizinha. Ele saiu de casa, atravessou
a rua e foi para a praça, que fica logo em frente. Tão logo o bicho chegou lá,
começou a cheirar o ar. Depois, baixando a cabeça, pôs o focinho ao rés do chão
e entrou a farejar feito um cão, indo de um lado ao outro, bem devagar.
Tateando e cheirando, o bichano andou,
andou até encontrar algo. Ali ele parou, cheirou demoradamente seu achado. Eu
não tirava meus olhos dele. Aí vi quando ele apoiou-se numa das patas
dianteiras e começou com a outra a puxar terra e folhas secas em sua direção.
Em seguida, fez o mesmo com a outra pata.
Passada essa operação, vi quando ele se
afastou. Eu me mordia de curiosidade, mesmo sabendo o que ele havia feito. Não me
contive. Levantei-me e fui até onde ele estivera. Lá estava uma porção de cocô
de outro dia, coberto com um pouco de terra e algumas folhas em estado de
decomposição não tão adiantado. Aquela cobertura malfeita foi ele que a fizera
ainda há pouco.
Analisei o comportamento do animal e
conclui que aquela atitude correspondia a de uma pessoa que, deparando algo
errado feito por quem deveria ter feito justamente o contrário, corrigiria o
malfeito em silêncio, censurando o autor de tamanha indiscrição, como a dizer:
– Que falta de modos!
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