Religião e terror
Eu, nos primórdios dos anos 60, entre os dez e doze anos, portanto ainda uma criança, assistia, na escola, a aulas de religião uma vez por semana.
Quando digo “religião”, quero dizer “catolicismo”, ou religião católica, porque as outras religiões, essas não tinham vez, uma vez que, dada a maioria dos seguidores daquela, as minoritárias não eram vistas com bons olhos. Se o protestantismo, que engloba uma série de religiões cristãs, era discriminado, o preconceito maior ainda era contra quem nem cristão fosse.
Havia liberdade em continuar em sala, durante esses ofícios ou dela sair. Entretanto, a simples saída daqueles que não professavam a fé católica, sob o olhar de censura dos que ficavam, por si só, já se constituía um momento de visível constrangimento. Para os que ficassem, ainda que houvesse a liberdade de escolha, o constrangimento era maior ainda, porque, não obervando os ritos próprios ao ofício, esses eram olhados com desconfiança, como se fossem seres alienígenas.
A professora, obviamente católica, com o apoio do pároco local, portava um livrinho de catecismo, o qual, no início do ano letivo, era vendido para os alunos, a fim de que lessem e respondessem às questões referentes aos assuntos de que constavam do livro. O texto estava dividido em quatro partes que se ligavam entre si:
A profissão de Fé – baseada no Credo, cujo objeto é o mistério cristão;
A celebração do Ministério Cristão, que tratava da sagrada Liturgia da Igreja, especialmente os sete sacramentos;
Mas o que mais me marcou nessas aulas, fora uma espécie de terrorismo religioso declarado, cujo objetivo principal era arrancar as almas do pecado por meio do medo. O livrinho trazia ilustrações e pinturas, como o Juízo Final, o fiel acompanhado de seu Anjo da Guarda, enquanto o demônio, com a cabeça e pés de bode, cochichava ao ouvido de uma pessoa, seduzindo-a, a visão fantasmagórica do inferno onde os condenados eram supliciados pelas chamas e por serpentes vigorosíssimas enroscadas em corpos seminus.
Evidentemente aquela forma de ensinar surtia efeito, mormente naqueles mais sensíveis, que teriam de fazer de tudo para não caírem nas tentações demoníacas e não cometessem os sete pecados capitais (luxúria, gula, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça), sempre a égide do medo, uma vez que, no caso de cederem às tentações do diabo e cometerem esses pecados, aquelas iluminuras diziam muito bem dos tormentos do inferno que os aguardavam.
E como não pecar, isto é, não errar, se o erro faz do gênero humano? Depois de tanto se policiar, com o objetivo de escapar a esses delitos e, conseguintemente, do abismo tormentoso do inferno, o pobre cristão pecava e pecava, justamente porque o pecar está na índole humana. Peca-se por atos e omissões, ou de forma consciente ou inconsciente. E, ao descobrir ter havido pecado, aí vinha o medo do castigo eterno, isso em pleno século XX.
Hoje, após ler, prazerosamente, o romance do escritor italiano Umberto Eco – O nome da rosa – ambientado no século XIV, na Idade Média, na qual vigorava o pensamento teocrático, ou seja, dominado pelo sentimento religioso, durante a qual todos os fenômenos naturais ou não eram explicados pela interferência da Providência Divina ou do diabo.
Neste clássico da Literatura Contemporânea, o personagem principal, frei Guilherme de Baskerville, acompanhado de seu noviço Adso de Melk, viaja para uma abadia na Itália, abalada por mortes de alguns seus monges, suspeitas de suicídio ou assassinato, a fim de investigar suas verdadeiras, posto que Guilherme, ao contrário de outros monges de seu tempo, orientava-se pelos ensinamentos filosóficos e científicos de Roger Bacon, portanto longe daquela visão religiosa de que as mortes fossem resultado das ações do Anticristo.
Imagino, então, como era temerário viver na Idade Média, justamente por causa da força do pensamento católico que não admitia qualquer outro pensamento diferente do seu, mesmo daqueles que, dentro do próprio catolicismo, defendessem teses que contrariassem o pensamento dominante, pois podiam terminar acusados de heresia e queimados vivos pelo Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição, se, em pleno século XX, ainda existia aquele terror no ensino religioso.
A minha opinião é que religião não se ensina; aceita-se. Ninguém aprende a ser católico, protestante, umbandista, espírita, etc., senão pela força do costume ou da imposição. Tomemos como dessa imposição, aqueles garotinhos torcendo, constrangidos, por time A ou B, simplesmente porque o pai não admite que o filho torça por outra equipe que não a dele. Este texto não é uma parênese ao catolicismo ou a qualquer religião, mas às autoridades permitem o uso do ensino público, de um ente laico como deve ser o Estado para objetivos, ainda que se diga que não visem ao proselitismo desta ou daquela religião, haverá, por força do caráter humano, a tendência a incluir no discurso, aqui e ali, por meio de subterfúgios velados, a doutrina de sua fé.
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