domingo, 1 de abril de 2012

Brincadeiras de criança

Caçar é um reflexo do inconsciente do homem. A luta pela sobrevivência fez com que esse ato se introjetasse na sua psiquê, de tal modo que, mesmo nos meninos citadinos, ele tende a aparecer, ainda que isso lhes pareça apenas uma coisa divertida.


Última caçada

         Quando era menino, eu queria muito ter um estilingue. Na verdade, “estilingue” é como se costumava chamar, na cidade grande, e, nos livros que a gente lia na escola. Ao ouvir, pela primeira vez essa palavra, não tinha a mínima noção do que era. Até que uma ilustração, num livro de leitura, na qual se via um garoto atirando pedras e matando passarinhos me esclareceu o que era aquilo. E eu disse para mim mesmo, com enfado:
         – Ah!... isso é uma baladeira!...
         Pois eu tive uma baladeira. O bolso de uma camisa velha de meu pai, e eu tinha um pequeno embornal. As pedras, eu as catava numa ladeira, onde os seixos de todas as formas e cores ficavam à mostra, lavados com a passagem das águas de chuva. Se não, ia a um barreiro de olaria, tirava o barro liguento, fazia várias bolinhas, assava-as e ali estava uma munição especial bem acabada.
Eu enchia aquele saquinho e, como não tinha outra coisa a fazer, ia para o quintal disparar contra lagartixas, passarinhos e, na falta deles, treinava a mira em penicos velhos esmaltados, furados, jogados ao monturo, ou numa fruta ou, ainda, contra o tronco de uma árvore. O importante era estar em ação.
         Eu já havia matado dezenas de lagartixas. Papai até gostava disso, principalmente quando matava aquelas que se punham na entrada dos cortiços das abelhas e devoravam uma porção delas. Passarinhos, também matei muitos deles, com os tiros certeiros de minha arma de caça. O bicho ficava lá no galho, escondido, entre a folhagem, ou comendo tranquilamente uma fruta, e eu me aproximava, sorrateiramente, pé ante pé, até descobri-lo, colocar a pedra no couro, fazer mira, soltar a pedra e ver a ave perder parte das penas, por causa do impacto, e cair, em rodopio, até o chão, ainda viva ou morta.
         Até que um sábado à tarde, fui ao riacho que passava por minha cidade. No caminho para lá, avistei um pássaro com penas pretas e brancas, na maior parte do corpo, e um vermelho, muito vivo, na cabeça. Logo reconheci-o: era um galo-campina. Pulei a cerca, pois ele estava longe. Aproximei-me, cuidadosamente, agachando-me até achar o ponto ideal para o disparo. Não queria errar. Fiz a mira e... zapt!, a pedra partiu.
         O galo-campina caiu, rodopiando. Corri a apanhá-lo. Estava vivo. Segurei-o, e ele se debateu para escapar. Pensei matá-lo logo, quebrando-lhe o pescoço. Porém, a sua beleza me encantou e eu pensei em curar-lhe a ferida e pô-lo numa gaiola para meu deleite.
Enquanto pensava nisso, com a avezinha presa dentro de minha mão, apenas com a cabeça e o pescoço para fora dela, vi sua cabecinha vermelha pender, lentamente, para um lado, como naquelas clássicas cenas do cinema hollywoodiano, nas quais alguém morre nos braços do pai, da mão, de um amigo ou amiga, ou, para tornar a cena ainda mais romântica, ele morre nos braços da amada, ou vice-versa.
         Aquilo meu encheu de dó. Algo que nunca havia sentido antes, com aquela intensidade. E, então, o que fazer com ele? Comê-lo assado em casa, aquele meu sentimentalismo teria sido pura hipocrisia de minha parte. Deixá-lo ali para ser comido por algum animal ou pelas formigas? Não, eu pensei. Então, cavei um buraco e o enterrei como se sepultasse um ser humano igual a mim.
         Voltei para casa. A baladeira e o embornal, guardei-os e nunca mais saí a caçar com eles. Aquela fora minha última caçada.
          

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